CRIME E CASTIGO

Dias atrás, fui à biblioteca e finalmente tirei da estante Crime e Castigo, a obra monumental de Dostoiévski. Passei a ler doentiamente. A leitura ocupava todos os momentos de folga, e minha mulher, não sem razão, reclamou. Eu estava trocando a convivência familiar por um livro. Mas que livro!

O protagonista, Raskólnikov, mata uma velha usurária. Mata também a irmã da velha, e logo após começa a enlouquecer, sofrer tormentos mentais excruciantes. O castigo é imediato, imposto pelo próprio criminoso. Ele passa as noites ardendo em febre e os dias andando a esmo, ou vice-versa.

A psicologia atual ensina a autoindulgência. Prega o amor próprio a qualquer um, inclusive aos canalhas. Prefiro a psicologia de Dostoiévski. Não acredito em quem não se atormenta nem naqueles que vivem de arranjar desculpas para seus pecados. Desconfio de quem ama a si mesmo acima de tudo em qualquer circunstância.

Raskólnikov entrega-se à polícia, assume a dor e declara: “Matei, sou um assassino”. Só o sofrimento traz a redenção, e as pessoas souberam disto por muito tempo. Já não sabem. Creem cegamente na própria bondade. Qualquer velhaco, qualquer tratante bate no peito para gritar “sou do bem”.

A felicidade dos manuais, das filosofias fáceis, é falsa, é fake. Isto eu já havia descoberto. Agora, descobri que um homem não deve deixar sua família em segundo plano nem mesmo por uma obra monumental. Por outro lado, todos nós precisamos de um livro. Não mais do que um. O meu será Crime e Castigo.

CRITICAR…

“Criticar é fácil”, dizem. Concordo, mas nem tanto. Talvez para um vermelho seja simples criticar os azuis, e para um azul seja até gostoso criticar os vermelhos, mas criticar indistintamente, enfrentando ora uma, ora outra metade do universo bicolor não é nada mole.

Vejam bem, meus amigos, escrevo gratuitamente. Claro, existem ganhos secundários, como os afagos recebidos no ego vaidoso e a catarse que alguns textos proporcionam. De resto, portas se fecham, pessoas se afastam, há bastante pressão. Que lucro que dá?

Não quero insinuar coragem, nem qualquer outra virtude, apenas mostrar minha posição desconfortável, difícil mesmo. Provocar os bacanas, os poderosas, nunca facilitou a vida de ninguém, muito menos a minha. Mas, por alguma razão, preciso escrever. Escrevo, logo existo.

Quem, como eu, expõe-se desta forma, flerta com o ridículo, porque ridículos todos somos em alguma medida. Em cima do picadeiro, cada palhaço desempenha o seu papel, e o do crítico sem cores não é dos mais tranquilos, podem ter certeza.

DIÁRIO DA BENEDETTA

Acabou a Copa, temos de voltar às nossas ocupações comezinhas. Não sobraram subterfúgios para contornar o dia a dia irritante do noticiário político, a rotina e a convivência precária. Ou melhor, subterfúgios sempre há, ainda bem, mas chega uma hora em que a banalidade emerge, impõe-se, teimosa, inexorável. Vamos aos fatos.

Foi publicado edital de concurso público. Demorou. Porém as vagas são poucas e o certame não chegou a empolgar muita gente. Existem na administração tantas vagas preenchidas por “QI”, pratica-se (sempre se praticou!) tanto empreguismo, que concursos são realizados a contragosto, depois de muita pressão do Ministério Público. Este não deverá mudar nosso perfil colonial.

Nomeada nova secretária de administração. Seu nome é Dalvania, veio de Içara. Já passou por diversas prefeituras governadas pelo PP, foi e será candidata à prefeita de sua cidade. Chegou para vestir a camisa 10 e colocar ordem no meio-campo, dizem. Eu nada posso dizer. Posso sim: entre os partidos que compõe o governo não devem existir urussanguenses aptos ou dispostos a assumir os cargos mais importantes. Formou-se um time de “estrangeiros”.

Outra situação: a Maçonaria faz parte do “conselho de gestão” do município. Sim, a própria, a sociedade fechada, secreta, indecifrável. Não tenho nada contra os maçons, mas ninguém sabe o que eles conversam ou almejam, e por isso não têm legitimidade alguma para integrar o conselho que for. Saudades da Copa do Mundo!

PISTOLA

Estou de volta. Quando fico uma semana sem aparecer, alguns se animam, mas ainda não foi desta vez que desisti de cometer semanalmente estas mal traçadas. Voltei pistola com a eliminação do Brasil, mas antes perder para a Bélgica do que para a França. De qualquer modo, não vai ter hexa, e nós não vamos festejar nada. Vamos baixar a cabeça, trabalhar e tentar lidar com um fato: em outubro também não haverá motivos pra comemorar.

Menino Neymar saiu da Copa com a imagem arranhada. É menino no sentido de infantil. Futebol, ele tem, mas tem também um ego monumental, uma vaidade indomável, e a vaidade já derrubou muita gente do cavalo e do poder. Ela infesta as redes sociais, contamina as relações, deixa as pessoas feias, antipáticas e frágeis. Parodiando o dito popular, e pedindo desculpas pelo palavrão, afirmo convicto: a vaidade é uma merda.

Apesar dos que se animam com minhas ausências, alguns me param pra dizer que gostam bastante dos meus textos. Pedem para eu não deixar de escrever. Por um instante, fico envaidecido feito um Neymar. Penso em publicar livros, mas logo caio na real. Não sou tolo, sei bem onde é o meu lugar. Como disse Borges, “enquanto alguns se orgulham dos livros que escreveram, eu me orgulho dos livros que tenho lido”. E eu tenho lido como um Lula na cadeia.

Para quem não vai ser hexa nem tem esperança nas eleições, a literatura é um ótimo refúgio. É também um apoio no cansativo esforço que tenho feito para afastar-me da superficialidade vaidosa de nosso tempo e viajar por outras épocas, nas quais havia mais sabedoria e menos pose, e quando os jogadores de futebol (e não somente eles), mesmo adolescentes, já eram homens feitos. Semana que vem, prometo, tentarei estar menos pistola. Tchau!

FUTEBOL E ROMANTISMO

O preparador físico da Seleção de 1982 trouxe uma novidade que não agradou muito aos jogadores. Eram as incômodas sessões de alongamentos, até então desconhecidas. Passou-se a exigir maior desempenho físico dos atletas, e o capitão Sócrates assumiu o compromisso de beber e fumar menos durante a Copa. Porém, sorteado para o exame antidoping, tomou todas as cervejas disponibilizadas pela FIFA, a título de diurético, para só então fazer xixi. O futebol brasileiro ainda era rebelde, romântico como a obra de Goethe.

Somos muito saudosos do time de 82 e de seu futebol, enfeitado como índio de carnaval. O romantismo é o inconformismo com a vida moderna, ou seja, o inconformismo com a vida real. Aquela Seleção era romântica porque ousava desafiar a fria realidade da preparação física e dos esquemas táticos. Acreditava na vitória pela simples irreverência do futebol arte. Os brasileiros a idolatram porque são também românticos, rebelados contra a dureza da vida.

Outro exemplo da falta de entrosamento com a realidade: muitos ainda acreditam que a final de 1998 foi vendida para a França, ou que a semifinal de 2014 foi entregue, sabe-se lá a que preço, para a Alemanha. Não passa pelas cabeças desesperadamente românticas a possibilidade óbvia, claríssima, de que o Brasil perdeu porque a França e a Alemanha venceram. Para nós, nada pode ser simples e lógico. Nem no futebol. Muito menos no futebol.

Os atletas de hoje não se assustam com treinamentos exaustivos, tampouco são românticos. Quem assina contratos milionários esquece o romantismo, ainda bem. Não é possível ser campeão tomando cervejinhas depois dos treinos, nem entrando em campo apenas na base da improvisação. É necessário treinar, ter os pés no chão e manter a sobriedade, tanto na vitória quanto na derrota, assim no futebol como na vida. E que venham os mexicanos!

INTERVALO

Farei um intervalo na saga “Rumo ao Hexa”. Não, não deixei de acreditar nem de torcer, contudo resolvi colocar as barbas de molho. Ninguém mais instável, mais volúvel do que o torcedor brasileiro. Acorda exultante e vai dormir possesso, berra “o campeão voltou” para logo em seguida cair na mais completa e apática desconfiança. Assim no futebol como na vida. Mas, vamos em frente, meus caros amigos.

De assuntos políticos não se pode falar sem ferir sensibilidades. E as sensibilidades, insensíveis como são, respondem com cusparadas verbais e argumentos hediondos. Por exemplo: precisei bloquear, no Facebook, meia dúzia de marmanjos que davam chilique por qualquer crítica ao Bolsonaro. Se alguma vez cogitei votar neste homem, seus próprios apoiadores me desencorajaram. Voltemos ao campeonato mundial.

Quero prestar um óbvio tributo a Cristiano Ronaldo, o workaholic da bola, o obsessivo, o tarado do futebol. CR7 não apenas joga, ele trabalha, leva a sério sua profissão mais do que qualquer um e por isso é o melhor, incomparavelmente o melhor. Neymar foi agraciado com um talento, talvez, mais abundante, porém perde-se em coisas vãs, insiste em viver na adolescência. CR7 é o mito, praticamente um nauta camoniano.

Encerro trazendo duras verdades. Não foi falta em Miranda. Não foi pênalti em Gabriel Jesus. Bolsonaro não salvará o país. Sejamos corajosos para admitir: falhamos na defesa, falhamos no ataque, falhamos ao eleger nossas esperanças. Se não pararmos de colocar a culpa nos outros, se continuarmos esperando que outros resolvam nossas vidas, não seremos hexa, não seremos nada. Bom fim de semana a todos.

RUMO AO HEXA – PARTE III

Para mim, 23 de junho de 1986 ainda é presente. Ou, por outra, foi ontem. Foi quando completei sete anos e a Seleção saiu da Copa, miseravelmente eliminada pela França. O tema óbvio da minha festinha: futebol. Frustação e tristeza. Quatro anos depois, em 24 de junho de 1990 (outra data intransigente), vi o Brasil ser humilhado por Maradona numa tarde gelada de domingo. Após a partida meu pai apanhou uma bergamota do pé e chupou-a desolado, cuspindo no chão as sementes. Aprendi cedo a sofrer com o escrete.

Os frios e racionalistas não aceitam, não compreendem a paixão pelo futebol. Julgam ignorantes, por exemplo, urussanguenses torcedores do Flamengo, ou do Vasco. Mas há no jogo uma identificação transcendente às questões territoriais, geográficas. Ele pode unir pessoas de qualquer parte. Pode também dividir, ao ponto do assassinato, mas ainda assim o propósito do esporte continua sendo sublimar a guerra. Indiferente, porém, a trágica condição humana nos acompanha por toda parte. Não é culpa da bola.

Um amigo desdenhou o gol de Neymar, após deixar sentado um zagueiro austríaco. Para ele o beque gringo deveria ser proibido de jogar. De fato, trata-se de um perna-de-pau nato e hereditário. Caiu sentado, e cair sentado é a coisa mais desmoralizante da vida. Seja como for, não desprezemos nosso time. Ele é bom e atua com virilidade, gosto, tara pela bola. Resta saber se a sorte, proprietária do destino, estará conosco.

A Copa do Mundo já começou. Não terei tempo para salvar o planeta, lutar por um mundo melhor, problematizar o salário dos craques ou o pouco interesse do público pelo futebol feminino. Quero é assistir aos jogos, tanto as peladas vexaminosas quanto os clássicos dramáticos e filosóficos. Quero acrescentar às minhas memórias mais momentos trágicos ou gloriosos, de decepção ou triunfo, sempre torcendo angustiado pela Seleção. Só depois refletirei sobre qual dos presidenciáveis tem menos aptidão para afundar de vez o país. Boa Copa aos que se permitem apreciá-la. Tchau!

RUMA AO HEXA – PARTE II

Nota

Se você não leva a Copa a sério e entrou na onda de desprezar a Seleção, dizendo ser coisa para alienados, sinto muito. Este artigo é para quem compreende a dramaticidade e o lirismo do futebol. É para quem ainda não virou chato e não vive de patrulhar o divertimento e as paixões alheias. É somente para aqueles que não caíram nas armadilhas modernas da política, do ativismo e do senso crítico. Ou seja, nas armadilhas do tédio e da pose. Sobretudo da pose.

Enquanto alguns posam de cidadãos conscientes, assistirei à Copa. Assistirei e torcerei com fervor religioso, assim como tenho feito desde 1986. Não me venham com a conversa de que a Copa serve ao governo para anestesiar o povo. Futebol é arte sim, senhor, e se ele anestesia, também anestesiam a dança, a literatura, o teatro e a pintura. São todas manifestações humanas muito úteis para escaparmos, por alguns instantes, da miséria do cotidiano.

Sinto saudade de quando a Copa fazia do Brasil uma nação. Tínhamos, ao menos, a pátria de chuteiras, unida em torno de um sentimento comum. Hoje, nem isso. Somos todos militantes de alguma causa, lutamos por um mundo melhor, digladiamo-nos e quase chegamos a cuspir uns na cara dos outros por políticos, ideologias, o diabo. Aos olhos dos engajados, vestir a camisa canarinho equivale a passar um atestado de bocó.

Pois o bocó aqui gostou bastante do amistoso contra a Croácia. O escrete apresenta ainda algumas falhas, mas tem brio, disciplina tática, preparo físico e, principalmente, Neymar. Tem também o Tite, brasileiro fora do padrão, trabalhador e estudioso obsessivo. Esqueçam aquele time infantil e chorão do sete a um. No futebol, assim como na vida, o humilhado é o mais perigoso dos seres. Possui forças inomináveis e incoercíveis. Viva o futebol!

RUMO AO HEXA

Confesso: não está fácil. Mas também não está tão difícil, de modo que vou em frente, só de birra, só de sarro, como dizia o sambista. Sou acusado de criticar sem fazer minha parte. Pois fazer minha parte tem sido dar pérola aos porcos, com o perdão do leitor inteligente. Também tem sido não puxar saco de marmanjo e ficar longe da paixão política, “a única sem grandeza, capaz de imbecilizar o homem”, conforme avisava Nelson Rodrigues. Fazer minha parte é não ser um imbecil.

Não sendo um imbecil, vou assistir à Copa. Tem mais: vou torcer muito pela Seleção. Até gostaria de dar opinião sobre a greve dos caminhoneiros, mas se fizer isto serei morto. Estou cansado de morrer. Nada melhor do que uma Copa do Mundo para descansar. Enquanto alguns alienam-se pedindo intervenção militar, idolatrando populistas ou defendendo o partido amado, minha alienação será acompanhar a equipe do Tite. Fiquem à vontade para me xingar.

Nosso escrete é bem competitivo, acreditem. Temos chance de chegar à final. O sete a um não fez renascer a síndrome de vira-lata. Não no futebol. Já na política nunca deixamos de ser um cão magricela. Aqui ainda se pede intervenção militar, idolatra-se populistas e morre-se de amor por legendas. Muita gente – a maioria – não vai gostar do que estou dizendo. Paciência. Não escrevo para ser legal com ninguém. É a minha parte. Até a estreia contra a Suíça, estaremos na perna. O hexa é logo ali.

BENEDETTA: ANO 140

Urussanga está completando 140 anos. O clima não é de festa. Se no futuro algum historiador ou simples curioso tiver acesso às edições do Jornal Vanguarda e ler estas mal traçadas, pode acreditar no cronista: passamos este aniversário respirando uma atmosfera de divisão e desânimo. Nestes dias que passam a cidade está feia. Há pouco a comemorar.

 

Tanto é que os festejos serão discretos. A efeméride passa quase em branco, sem muito entusiasmo do poder público e da comunidade. Alguns até se esforçam para manter vivas certas tradições e costumes, mas o movimento cultural da cidade já não conta com nenhum incentivo relevante. A cultura como atividade política foi colocada num canto escuro.

 

Falando em canto escuro, o breu das tocas é tendência. Depois que visitei a Toca do Graxaim, fui convidado por outra servidora exilada a conhecer a repartição onde passa os dias cheirando parede, sem fazer nada, apesar do alto salário. “Urussanga Omnia Labor”, diz a frase em nosso brasão. Mas nem tudo é trabalho. Muito é clientelismo, perseguição e ócio. Ócio nada criativo.

 

Uma leitora confessou desencanto com país e cidade. Pretende fechar seu negócio e emigrar. Eu não darei este gostinho a ninguém. Se for para o descontentamento geral e aborrecimento de todos, fico. Afinal, em qualquer lugar do mundo é impossível contornar os infortúnios da existência. Como dizia o jagunço Riobaldo, “viver é muito perigoso, acaba sempre em morte”.  

NARIZ, TÉDIO E CORAGEM

Com o nariz operado, tive de ficar quase uma semana sem botar a cara na rua. Parecendo um urso panda, respirando pela boca e recluso num apartamento, logo me aborreci. Já dizia Voltaire que “o repouso é uma boa coisa, mas o tédio é seu irmão”. Entediado, fui ler sobre Cyrano De Bergerac, poeta e espadachim do século XVII. O homem travou quase dois mil duelos durante a vida, muitos deles por causa das chacotas que faziam sobre seu enorme nariz. Num dos duelos, o narigão de Bergerac foi atingido e ficou com uma cicatriz igualmente avantajada.

Quando recuperei as feições humanas saí de casa e fui comprar passaportes para a festa do vinho. Em frente aos guichês do parque municipal fica a Toca do Graxaim, local onde quatro servidores públicos municipais foram colocados de castigo. Resolvi fazer uma visita aos exilados da administração e percebi que meu tédio era nada perto do deles. Sentados, melancólicos, olhando um pra cara do outro sem fazer absolutamente nada além de lamentar a situação. Achei a cena surreal como a biografia de Cyrano De Bergerac e saí de lá aliviado por ser um profissional autônomo.

Assim como o poeta narigudo, já lutei muitos duelos. Alguns contra mim mesmo, outros contra adversários supostamente poderosos. Nenhum deles foi por causa do nariz. Quase todos em razão da língua. Não há procedimento cirúrgico que a corrija. Carrego cicatrizes, mas venci quase sempre. Enfrento o tédio e o autoritarismo com coragem irresponsável e ousadia inconsequente. Até aqui tem dado certo. Cyrano De Bergerac padeceu e morreu após ser atingido por uma viga que caiu de uma construção sob a qual passava. Morte estúpida. Ainda assim, muito mais digna do que morrer de tédio, obediência e passividade, aceitando chacotas e desaforos. Meu nariz está quase bom. Força aos exilados!

TROÇA E SIMPLESMENTE TROÇA

Já passou o tempo de eu me levar a sério. Foi-se aquela época em que eu tratava com seriedade as coisas da política. Reli alguns textos antigos e fiquei enjoado com o tom professoral, com o estilo acadêmico, pretensioso. Eu era muito chato. Talvez ainda seja, mas hoje tento tirar onda, sobretudo de mim mesmo. Fecho com Lima Barreto, que recomendava fazer “troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo”.

Lendo o Baffone da semana passada, logo na primeira notinha deparei com um texto pedindo otimismo aos urussanguenses. “Pra frente, Urussanga!” Com todo respeito ao colunista, que eu nem sei quem é, preciso indagar: de onde vem este otimismo, colega? Em que local você quer que o urussanguense busque tantas esperanças? No paço municipal, na Praça Anita Garibaldi, no Retiro Pamir, na área industrial ou no lendário concurso público?

Da minha parte, seguirei pessimista e fazendo troça. Sou urussanguense, não tenho vergonha nem orgulho. Uma prima que mora em Florianópolis, mas também é urussanguense, quando perguntada sobre sua naturalidade diz ser de Criciúma. Tadinha! Não é o caso de ter vergonha, prima estimada. Ser criciumense não te faria melhor do que nós, até porque Criciúma também é atrasada e não vai pra frente, nem mesmo quando emplaca um Governador.

Se nem eu me levo mais a sério, o que dizer dos leitores? É certo que usam meus artigos apenas para dar risadas, e assim já me dou por satisfeito. Dar risadas, afinal, é o que nos resta.  Claro, nem todos acham graça, e esta é a parte mais engraçada. Façamos troça, caiamos pelo ridículo e enxerguemos nossa real condição. Não sou o Baffone nem a prima que mora na capital. Tenho poucas expectativas, mas nenhuma vergonha de ser quem eu sou.

CALOR SENEGALÊS ou MINHA CARREIRA POLÍTICA

O calor senegalês está sufocando a Benedetta faz uma semana. Só gosto do calor nas férias ou de folga. Trabalhando, desprezo. Como raramente estou de férias ou de folga, aprecio bem pouco o tempo quente. Menos ainda quando ele tem o mau gosto de aparecer no outono. Mas paremos com este papo de elevador, expressão inequívoca da minha preguiça diante dos assuntos sérios. Ando cínico demais.

Tempos atrás cogitei entrar na política, candidatar-me a vereador. Quase caí na provocação dos que diziam que é “muito fácil ficar escrevendo e criticando sem participar”. Bela tentativa, seus bocós! Mas participem vocês, porque eu vou continuar escrevendo e reclamando do tempo. Minha licença de escritor depende apenas de querer e saber escrever, e de existir alguém inconsequente o bastante para publicar.

Pra ser sincero, além do cinismo, tive outro bom conselheiro. Pessoa próxima e experta na política local foi direto ao ponto: “Tu não és talhado para o negócio, Luciano. Cai fora”. Realmente, não sou. Não tenho tolerância com a ética partidária e perderia rapidamente a paciência com os eleitores. Eles querem dinheiro, cerveja, favores de toda sorte, mas eu, para oferecer, só tenho conversa – e olhe lá!

Segundo a previsão, o calor senegalês segue até terça-feira. Pombas! O ar condicionado deixa a fatura da energia ainda mais pornográfica e possivelmente não terei folga até lá, porque preciso colocar em dia compromissos atrasados. Tudo certo, minha vida não é uma festa. Mas também não é nenhuma desgraça, como deve ser a daqueles que entraram na vida pública mesmo não sendo “talhados para o negócio”. E agora que minha carreira política acabou, vou ali tomar um sorvete. Tchau!

Energia de ativação

Tenho pensado em “energia de ativação”. Consiste na “barreira energética que deve ser vencida para que uma reação ocorra”, ensinou o amigo. A química é ótima ferramenta para interpretar a vida. Melhor que economia e sociologia. Nunca me interessei muito pela química, mas a “energia de ativação” é deveras fascinante. Imagino-me a romper a barreira energética riscando um palito de fósforo e desencadeando explosiva reação. Benedetta pelos ares!

O niilismo às vezes me pega. Geralmente no café da manhã. Enquanto roo um pedaço de bolacha integral, penso que tanto faz ser ou não ser. Sorvendo um gole de café fraco, reflito sobre o absurdo das coisas. Luto contra estes pensamentos como quem luta contra a lei da gravidade, contudo sempre venço. Para os católicos o niilismo é um grande pecado. Eles estão certos e eu sou um pecador. Tende piedade, Senhor!

Mas, apesar das crises incendiárias e destas linhas irresponsáveis, ainda me resta alguma responsabilidade. É necessário respeitar convenções e autoridades, fazer vistas grossas para relações falsas e pouco caso dos discursos mentirosos. Respeitar aparências é um ponto de maturidade que minha imaturidade consegue alcançar, ainda que não sem grande esforço. A tentação de romper a barreira energética é companheira de desjejum. No almoço já se foi.

Tenho família e instinto de sobrevivência. Sufoco o desalento num gole de café e recupero a vergonha na cara. Se a questão é ser ou não ser, melhor mesmo é citar Shakespeare, manual de instruções da alma humana: “Será mais nobre sofrer na alma pedradas e flechadas do destino feroz ou pegar em armas contra o mar de angústias e, combatendo-o, dar-lhe fim?”. Cada um que pense e faça sua escolha. Meu espaço acabou. Bom fim de semana pra vocês.

Na cidade grande

Semana passada, vocês sabem, estive em São Paulo, passeando mais a esposa. Sou caipira, porém enfrento cidades grandes com certa desenvoltura. Conheço algumas delas, graças a Deus, de modo que tenho noção de como é a vida fora da Benedetta. Não muda nada, ao menos na essência. O drama humano é universal. Sofre-se e goza-se com o mesmo desespero na roça e na metrópole. Teme-se a morte na Avenida Paulista ou em Rancho dos Bugres com semelhante perplexidade.

Algumas coisas, contudo, fazem diferença. Fomos assistir a uma peça do Ballet Estatal de São Petersburgo. Coisa mais linda. Trata-se da alta cultura, capaz de elevar-nos a alguns metros do chão. Nós aqui não temos disso. Em nossos eventos culturais, ouvimos o sertanejo universitário, com todo o respeito ao sertanejo universitário, por favor. Mas, enfim, alta cultura à disposição é um alento do qual não dispomos aqui neste interior. Uma pena!

Além de ir ao balé, queria participar do “Carnalula”, programado pelo MBL em comemoração à prisão do sujeito. Mas a festa foi cancelada a pedido da polícia, para alívio da minha mulher. A polícia e a minha mulher têm muito mais juízo do que eu e o MBL. Certamente uma baita confusão foi evitada, e pude aproveitar melhor meu tempo em Sampa comendo contraditoriamente um sanduíche de mortadela. Mortadela Ceratti, é claro.

De volta ao meu chão, vida que segue. Lula preso e a bruxa solta. Energia de ativação baixa. Uma névoa de tensão e incerteza ofuscando a visão – tanto lá quanto cá. A diferença, basicamente, é que eles (mas nem todos, evidentemente) podem de vez em quando assistir a espetáculos como Ballet Estatal de São Petersburgo, única coisa estatal bonita e eficiente que eu conheci em toda minha vida. Agora, com licença, vou trabalhar. Semana que vem tem mais.

Dentro do avião

Escrevo estas linhas a bordo de um voo da Gol, com destino a Guarulhos. O serviço da companhia é sofrível, mas as tarifas são convidativas. A Gol, aliás, é ré numa ação judicial em que eu e minha família exigimos gorda indenização por danos morais. Já saiu sentença. Ganhamos e houve recurso. Pouco importa o litígio. Inimigos, inimigos, negócios à parte. Estou avistando, lá no início do corredor, o carrinho de guloseimas.

No texto da semana passada, subi um pouco o tom da crítica. Um amigo chamou minha atenção: “Cuidado, na Benedetta a energia de ativação é muito baixa”. Não sei bem o que é “energia de ativação”, mas creio que ele esteja certo. Qualquer fagulha é capaz de provocar uma explosão ou uma reação em cadeia. Na maioria das vezes, é preciso dizer as coisas nas entrelinhas, com eufemismos. A opinião crua e direta choca e ofende. O carrinho de guloseimas já está quase chegando em mim.

Se eu fosse um colunista político com algum compromisso e previsibilidade, estaria aqui dissertando sobre a decisão do STF que negou habeas corpus a Lula. Porém não sou nada disso e pretendo dizer apenas, como a maioria dos brasileiros, que fiquei bem contente com o veredito. Primeiro pelo caso concreto: Lula merece cadeia. Segundo pela tese vencedora: onde já se viu condenados em segunda instância continuarem a ter presunção de inocência?

Os comissários chegaram com as guloseimas. Comi um pacote de salgadinhos e bebi suco de laranja. Sofrível. Daqui a pouco, estaremos em São Paulo curtindo a vida, eu e minha esposa, vendo como vivem os ricos na Oscar Freire e os pobres na Vinte e Cinco de Março. Anônimos, ocultos, distantes de olhos atentos e fiscalizadores. Preciso encerrar agora. O avião vai aterrissar e a aeromoça mandou eu desligar o celular. Tchau!

Sem estudo – Coluna Luciano Schimidtz

Lula passou a vida jactando-se da baixa escolaridade, orgulhoso da própria ignorância. Para ele, o conhecimento técnico nada vale, tanto que apesar de ter chegado à presidência da república jamais procurou concluir os estudos, fazer um curso de inglês, adquirir cultura, aperfeiçoar-se em alguma área. A postura de Lula, desdenhosa da formação escolar, prestou grande desserviço ao país.

A atual administração municipal parece concordar com o ex-presidente, e pretende aprovar lei para reduzir a escolaridade necessária ao preenchimento de diversos cargos de direção. São funções cuja ocupação pede engenheiros e técnicos, mas o executivo acredita que nem mesmo o ensino médio completo é necessário possuir para desempenhá-las bem. Talvez o problema seja que, nos partidos integrantes da gestão, ou entre aqueles que fizeram a campanha eleitoral, não haja técnicos, apenas “práticos”.

Gostaria de ver um engenheiro civil na diretoria de obras, um agrônomo na de agricultura e assim por diante. Mas até hoje, aos 38 anos, o que tenho testemunhado é a aprovação de leis oportunistas, destinadas a reduzir a qualificação exigida dos burocratas a fim de dar vez a credores políticos. Quem tem boa memória deve lembrar: não é a primeira vez que isto acontece na Benedetta.

Segundo Lula não é preciso ter estudos para governar. A administração local parece comungar da ideia. Nossas chances de andar pra frente são bem remotas. Bons estudos a todos!

PROSA ÁRIDA

Uma vez, quando criança, fui à casa de um primo em Florianópolis. Peguei na estante da sala um livro do Manuel Bandeira e comecei a folhear. Ele – o primo – tinha lampejos poéticos e arriscava versos às margens das páginas. Nunca me esqueci de um, mais ou menos assim: “Não acho que uma pessoa de 26 anos tenha de ser feliz, o que me aflige é não transformar sentimentos em poesia”. Há muito tempo não vejo o primo.
Talvez tenha desistido de tentar ser poeta. Sofro como o parente. Consigo, no máximo,
transformar sentimentos em prosa árida, que não chega a elevar o espírito para muito além de coisas chãs como o dia a dia político e administrativo da Benedetta, a guerra odienta das redes sociais e minha própria criação de canários belgas. Meus momentos mais sublimes aconteceram quando escrevi obituários ou falei da experiência de ter filhos. Lampejos.
Também não penso que uma pessoa de 38 anos tenha de ser feliz. Incomoda-me é não transformar angústias nalguma forma de poesia. Não tocar um instrumento, não redigir bons versos, não fazer desenhos ou pintar telas, não escrever contos nem romances. Sou um colunista político, e política é antipoesia. Política é o chão, poesia o céu. Política é cinza e poesia, colorida. Política é o feio e poesia o belo.
Ser feliz – conforme os conceitos atuais – é bobagem. Forma inerme de contornar o aspecto trágico da vida e transformá-la numa balada sem fim. Importante e necessário é sublimar os impulsos, os instintos e a política, é fazer algum tipo de poesia e passar instantes acima da superfície. Sigo tentando. Polindo arestas, lixando asperezas, respirando fundo. Dá trabalho, mas é mais gratificante do que “ser feliz”.

PRIVATIZAR É PRECISO

Viva, viva! Vão privatizar a Eletrobrás. É a melhor notícia política desde o impeachment. Tanto é uma boa que os petistas já começaram a chiar. Sem estatais mastodônticas não terão de onde roubar tanto dinheiro caso um dia voltem ao poder. Estatais são antros de malversação e ingerência, financiadoras ocultas de campanhas eleitoras, prato cheio para as más intenções.
E por falar em campanhas eleitorais, as de 2018 serão estatizadas. Seu financiamento será público e sugará R$ 3,5 bilhões do Erário. Satisfeito deve estar quem berrou contra o financiamento privado, achando imorais doações de empresas a partidos. Contentes decerto estão os ministros do STF, que consideraram inconstitucionais estas doações, as quais continuarão a ocorrer, clandestinamente, ou alguém duvida?
Ando mais animado com meus canários do que com as eleições, mas votaria satisfeito em quem prometesse privatizar o mais possível. Privatizar é a melhor maneira de prestar serviços com qualidade e a única de reduzir consideravelmente a corrupção. Mas não há ninguém, que eu saiba, levantando esta bandeira até o momento.
Parágrafo final para divagar, adivinhem, sobre canários belgas, animais privados, que por isso mesmo não correm qualquer risco de extinção. Seus proprietários os tratam bem, cuidam para não morrerem e facilitam a reprodução. Se a ararinha-azul e o mico–leão-dourado fossem também privatizados, quem sabe não tivessem sorte semelhante? Bem… Parece que começo viajar. Melhor encerrar aqui. Semana que vem eu volto.

MINHA CRÔNICA DA FESTA

É uma pena eu não conseguir mais beber como antigamente, quando passava as festas do vinho alternando o porre com a ressaca. Simplesmente não consigo. Chega um momento, bem antes da embriaguez, que a bebida para de descer. Talvez tenha sido reza da minha mãe. Desta vez consegui ficar semibêbado. Foi sexta-feira à noite, antes do show do Cabaré. Aliás, show deveras interessante. Não fossem as obscenidades de Eduardo Costa, seria perfeito. Banda excelente, produção impecável, repertório empolgante… E as dançarinas. Mas o dito-cujo é chulo e não sabe fazer da pornografia uma arte, se é que isto é possível. Penso que não é. Mas enfim, o parque estava completamente lotado e eu semibêbado. Foi bonito de se ver.
No sábado, sóbrio como um bispo, assisti ao show do Zé Ramalho de um camarote (agradeço penhorado pelo gentil convite). Zé Ramalho é um grande artista, além de raro brasileiro cumpridor dos compromissos: começou o espetáculo exatamente na hora marcada. É o anti-Tim Maia. Interagiu muito bem com o público, numeroso e animadíssimo, tocando todos os seus grandes sucessos. Arrisco dizer que foi um dos melhores shows de todas as festas. Desculpem se exagero.
Duas palavrinhas sobre camarotes e área VIP: são necessários. Mais ainda: são justos. Quando os espaços não eram diferenciados por preços, quem quisesse assistir aos shows de um bom lugar precisava esquentar a bunda nas arquibancadas desde cinco da tarde. Agora, basta pagar um pouco mais caro. É racional e conforme com as leis do mercado. Lembram os bêbados, no passado, apinhados em frente ao palco, transformando o melhor lugar da plateia numa atração à parte? Quem tinha coragem de descer ali? Às vezes eu tinha, mas porque era um deles. O horror!
Alguns, sobretudo opositores políticos, tocaram o terror nas redes sociais. Têm todo direito e é bom mesmo que toquem. Para isso existem. Cometeram exageros, é lógico, mas estão certos quando dizem que a empresa organizadora do evento foi arbitrária ao mudar o tamanho da área VIP de acordo com a atração. Apesar das rusgas, foram todos (ou quase) se divertir no parque, inclusive ocupando com entusiasmo o camarote de número quinze. Sempre houve e sempre há de haver polêmicas, mas ninguém resiste aos festejos de agosto.
Nota zero para o DJ residente. Torturou o público com funks indecentes. Ninguém o avisou que a festa é de família, com a participação de crianças, inclusive? Na próxima deveriam proibi-lo de se aproximar do parque, num raio de cinco quilômetros, pelo menos. Nota dez para o risoto da APAE (não deveriam voltar para o nhoque) e pra todas as comidas que experimentei. Nota dez também para a safra 2017 do vinho Goethe. De vinhos pouco entendo, só digo que gostei.
Resumindo: para mim a festa foi boa, como sempre. Levei a filha no parquinho de diversões, passei bons momentos com familiares e amigos. Comi muito e bem. Só lamento não conseguir mais beber como antigamente.