O nAMORo e a virtualidade

Na mesma velocidade em que os olhos piscam, sinalizam as mensagens nas telas dos celulares. E “piscam” os sentimentos nos corações dos enamorados. São ficantes, rolinhos, “peguetes” e tantas outras formas que as gerações escolhem para nomear seus afetos.

Faz algum tempo que viver um relacionamento afetivo é também ter que aprender a conviver com as tecnologias. Se antes eram os pais que ficavam na sala vigiando os enamorados, hoje são os “stalkers”. Se antes era a preocupação com a troca de olhar nos bailes, hoje é a mensagem apagada daquela pessoa que “eu não conheço”.

“Não existe mais o mundo virtual e o real. Tudo se misturou e as oscilações emocionais parece que também se interconectaram. A volatilidade e a rapidez das comunicações levam algumas pessoas de estados seguros para incertezas. A pessoa sai da casa do companheiro tendo a clareza do relacionamento que possui e quando chega em casa, ao ver uma curtida que ele fez na foto deoutra pessoa, basta para uma avalanche de incertezas emocionais invadirem o relacionamento”, pontua o psicólogo Alex Cambruzzi (CRP-12/10108).

O psicólogo comenta que isso revela muito sobre a personalidade. “É óbvio que isso revela um estado de insegurança. Fica cada vez mais evidente o quanto uma ação digital, que fora do campo virtual poderia ser interpretada como algo sendo natural, é distorcida. Levamos nossos egos de um campo para o outro. A internet não foi responsável pela fragilidade das relações. Ela apenas reflete, nestes casos, de maneira escancarada as inseguranças que cada um leva para os relacionamentos”, comenta.

Sobre a forma de como se iniciam as relações afetivas, o profissional explica que alguns pontos estão distintos quando comparados ao passado. “Trabalhava-se muito com o concreto. Hoje se evidencia mais a idealização. Com pequenos elementos o sujeito passa a construir um enredo. Lança hipóteses. E algumas pessoas esperam demais para conhecer o outro com maior propriedade. E é nesse tempo que se constróium mundo de fantasias: a fantasia de que aquela pessoa será exatamente tudo aquilo que falta em mim, que não irá me fazer sofrer e que tem os mesmos gostos que possuo. É na convivência fora do espaço virtual que testamos nossas hipóteses e verificamos até que ponto estamos dispostos a aceitar o real jeito de ser do outro. Esse tempo que se passa entre o conhecer no âmbito digital e o conhecer no âmbito físico revela o tempo que algumas pessoas precisarão para viver a ilusão. Revela nossas fugas e incapacidades em lidarmos com o verdadeiro”, frisa.

Quanto à vivência no dia a dia, Cambruzzi cita que o uso do celular também trouxe novos comportamentos. “O vício atrapalha. Parece óbvio, mas é comum ouvirmos do adicto a fala de que ele possui controle em relação ao uso. Na prática, me parece que estamos distantes do ideal. Se antes o desejo era por estar no momento, celebrando-o, curtindo o outro, agora aparenta imperar o desejo de publicar, de expor. E se o que você precisa é de outdoor, você pode estar usando a outra pessoa injustamente. Ela poderá começar a ser vista como incompleta, já que não atinge os seus desejos de publicização”, conta.

Para o profissional, relacionamentos requerem contratos. “As pessoas apostam muito no que fica subtendido. Errado! Relacionamento precisa de contrato verbal. Precisa de muita combinação regada à assertividade. Na assertividade comunicamos ao outro aquilo que precisamos, sem sermos agressivos ou ignorarmos o que sentimos. São estas combinações que estruturarão a caminhada da relação. E claro, sempre que for necessário, o parar para rearranjar a vivência”, salienta.

O alerta é em relação ao descarte. “Cuidado com o descarte! Há muito disso na atualidade. Se é impulsionado pela rapidez com que trocamos de objetos, isso terá que ser explicado por pesquisas. Mas é fato que alguns lidam nas relações afetivas fazendo do outro um objeto, trocando-o ao menor sinal de enjoo. Não há como viver um relacionamento de longa duração sem passar por períodos de menor identificação. Isso é parte do processo”, finaliza.

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