PROSA ÁRIDA

Uma vez, quando criança, fui à casa de um primo em Florianópolis. Peguei na estante da sala um livro do Manuel Bandeira e comecei a folhear. Ele – o primo – tinha lampejos poéticos e arriscava versos às margens das páginas. Nunca me esqueci de um, mais ou menos assim: “Não acho que uma pessoa de 26 anos tenha de ser feliz, o que me aflige é não transformar sentimentos em poesia”. Há muito tempo não vejo o primo.
Talvez tenha desistido de tentar ser poeta. Sofro como o parente. Consigo, no máximo,
transformar sentimentos em prosa árida, que não chega a elevar o espírito para muito além de coisas chãs como o dia a dia político e administrativo da Benedetta, a guerra odienta das redes sociais e minha própria criação de canários belgas. Meus momentos mais sublimes aconteceram quando escrevi obituários ou falei da experiência de ter filhos. Lampejos.
Também não penso que uma pessoa de 38 anos tenha de ser feliz. Incomoda-me é não transformar angústias nalguma forma de poesia. Não tocar um instrumento, não redigir bons versos, não fazer desenhos ou pintar telas, não escrever contos nem romances. Sou um colunista político, e política é antipoesia. Política é o chão, poesia o céu. Política é cinza e poesia, colorida. Política é o feio e poesia o belo.
Ser feliz – conforme os conceitos atuais – é bobagem. Forma inerme de contornar o aspecto trágico da vida e transformá-la numa balada sem fim. Importante e necessário é sublimar os impulsos, os instintos e a política, é fazer algum tipo de poesia e passar instantes acima da superfície. Sigo tentando. Polindo arestas, lixando asperezas, respirando fundo. Dá trabalho, mas é mais gratificante do que “ser feliz”.

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