Ponteiros da vida marcam 50 anos de dedicação

Jornalista: Eliana Maccari

São os ponteiros do relógio que regem a vida de Venicius Sartor, de 68 anos. Adentra-se no local de trabalho, na ótica e relojoaria Nancy, justamente quando o relógio da Igreja Matriz de Urussanga registra 8h30min e emite o som peculiar. Logo ele se dirige ao espaço destinado aos consertos. É neste pequeno local que o talento e a experiência conduzem e orientam o raciocínio há cinco décadas.
Quando jovem, Venicius escolheu aprender a profissão de relojoeiro com o tio Valmor Crema, na década de 60. “Eu tinha vontade de conhecer. Então ia até Criciúma, com 16 anos, trabalhar na relojoaria do tio Valmor. Meu primo Aldo também tinha a intenção do ofício. Nosso tio nos ensinou tudo. Trabalhei com ele dois anos e depois recebi uma
proposta para atuar em Urussanga”, recorda Venicius.
Sergio Felippe, proprietário da relojoaria Nancy na época, precisava de um relojoeiro e propôs a Venicius integrar a equipe de profissionais. O jovem não pensou duas vezes e aceitou o convite. O registro na carteira de trabalho é o primeiro e único. Desde 3 de fevereiro de 1968, há exatos 50 anos, Venicius atua como relojoeiro em Urussanga.
Ao longo dos anos, sem curso de qualificação, o talento nato foi sendo lapidado. O conhecimento foi aprimorado com a vasta experiência. Foi desmontando despertadores e relógios, desencaixando as peças e as engatando novamente que Venicius alcançou a execução da profissão com maestria.
Um verdadeiro explorador. Somente para desmontar relógios de pulso automáticos, aqueles antigos tradicionais que funcionam através de um sistema de engrenagens e molas, é preciso retirar em torno de 20 minúsculos parafusos.
“No começo era mais difícil. O problema era conseguir as peças. Peguei a época em que tínhamos que escolher eixo, tamanho e até altura. Às vezes até ter que recuperar peças únicas para fazer o relógio funcionar novamente. Hoje fabricam de tudo no mercado”, lembra.
As pequenas peças são manuseadas com utensílios de trabalho essenciais: feixe de luz, visão ampliada, concentração e pinça e chave de fenda miúdas. “Quando as peças não encaixavam, eu dava uma voltinha na praça para espairecer. E no retorno tudo era resolvido”, conta entre risos.
Às vezes, um trabalho minucioso em relógios especiais pode levar até duas horas de dedicação. Porém a evolução dos modelos e a comercialização de peças como, por exemplo, quartzo (bateria) na década de 90 e eco drive (conversão de energia) nos anos 2000, reduziram significativamente a demanda de trabalhos ao relojoeiro.
APOSENTADORIA
É com um discreto sorriso e simpatia que Venicius atende e presta assistência a todos os clientes que entram na ótica e relojoaria Nancy. Aposentado desde 2008, Venicius segue a rotina que traz satisfação e alegria ao exercer uma profissão em extinção.
Segundo o relojoeiro, a busca por um mundo mais sustentável deverá retomar a fabricação de relógios automáticos. “Eles devem retornar a produção deste modelo pensando no meio ambiente. Existe uma preocupação com os modelos atuais por causa das pilhas, da poluição, do descarte, dos componentes químicos”, explica. “Evolui junto com a loja. Nunca pensei em exercer outra profissão. Já me aposentei, fiquei um ano afastado, mas retornei a pedido da equipe. Não gosto de ficar sem fazer algo. Não sei até quando. Até que Deus me dê saúde. Não tenho intenção de parar e nem de trabalhar sempre”, finaliza.

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