Eliza Fretta: Cem anos de muita história
ago 27th, 2010 | por Jornal Vanguarda | Categoria: Geral
O rosário na mão, e nos lábios uma oração rezada em voz baixa. A concentração é notada em cada palavra, cada gesto e, principalmente, na fé que acompanha Eliza Fretta. As marcas no rosto demonstram que muitos anos já foram vividos pela senhora, que já foi parteira, capelã da igreja, catequista, confeccionava tamancos junto com o pai, benzedeira, esposa, mãe, entre tantas outras coisas. A aproximação do aniversário é quase como a realização de um sonho. “Se eu cheguei até aqui foi pela graça de Deus, que mesmo com tudo o que eu passei deixou eu vencer na vida”. Com essa frase Eliza resume o dia especial que foi a quarta-feira, 25 de agosto, data em que comemorou seus 100 anos de idade.
Natural de Armazém, a filha mais velha do casal José Cargnin e Rosa Catâneo Cargnin nasceu em uma família de oito irmãos. “Hoje nós somos só três vivos. Eu, a Maria e a Inês. Os mais novos já morreram e eu, a mais velha, continuo aqui”, relata. De uma família católica, Eliza, ainda com sete anos, aprendeu a rezar com o avô e nunca abandonou os ensinamentos. “No meu tempo era muito melhor, hoje as pessoas são que nem bugres, não vão nem rezar, tem gente que casa hoje e amanhã já separa. Eu acho que nesse mundo existe pouca reza e muita bobagem“, explica.
O trabalho também começou muito cedo na vida de Eliza. Durante o dia, ia para a roça junto da família. Plantava feijão, milho, entre outras coisas. As cinco, seis horas da noite voltava para a casa e partia para o engenho costurar os sacos para colocar a farinha de mandioca. “A gente trabalhava a noite toda com aquelas lamparinas de querosene. Eles me chamavam de Stela Matutina de Costurar Saco”, conta, aos risos. O trabalho durava até a meia noite e às 4 da manhã ela já estava de pé para iniciar um novo dia.
“Quando eu era solteira, trabalhava muito. Fazia até as comidas dos casamentos. O pessoal me chamava para preparar o arroz, a rosca e a galinha assada no forno. Isso me dava um trabalho! Antes de casar ainda me chamaram para ser a capelã da igreja da Canela Grande. Na verdade não tive muita escolha, já que meu pai mandou e eu tinha que obedecer. Eu lembro que foi no começo de janeiro que fui aprender a rezar com o padre Luiz Gilli, em Urussanga, no missário dele. Tivemos que limpar toda a igreja que estava cheia de pulgas e percevejos. No segundo domingo de janeiro peguei o meu livro, o rosário, e consegui encher a igreja de gente”, revela Eliza.
Todos os domingos e nos dias santos a jovem ia até a capela rezar com as pessoas da comunidade. Permaneceu na atividade durante quatro anos. No último, já estava casada com Joaquim Fretta, um viúvo que tinha oito filhos. “Eu casei com trinta anos com o Joaquim. Tivemos sete filhos e mais os oito que ele teve no outro casamento. Consegui criar e casar todos eles”, diz.
Outro trabalho que exigia paciência e dedicação era o de parteira. A preparação para os partos iniciava com a contagem das luas. Quando faltava uma semana para o bebê nascer, Eliza dava para a futura mamãe um vidro de óleo de rícino, uma espécie de laxante. “Eliza fez os nove partos dos meus filhos. Quando chegava a hora, fazia uma massagem com azeite na barriga. Se a criança estava virada, ela conseguia desvirar. Depois que o bebê nascia, ela dava um chá de noz moscada para descer tudo o ainda tinha na barriga”, conta a nora, Vitalina Lunardi Fretta com quem Eliza mora há aproximadamente 10 anos.
“Sabe como eles me chamavam quando ia fazer um parto? De cegonha. O remédio que eu usava era acender uma vela para Nossa Senhora do Bom Parto e rezar”, relata Eliza, sorridente. Além disso, benzia cobreiro, ramo de ar, torciloco, zipra e tudo o que aparecia. Auxiliava também o pai na confecção de tamancos que ele mesmo fabricava. “Meu pai fazia e vendia. O couro ele buscava em Orleans e a madeira para o solado eu pegava no meio do mato”, relembra a nonna.
Ao completar um centenário, o que fica para aqueles que conheceram, conversaram ou que ainda terão a oportunidade de conviver com a nonna Eliza é a sensação de que a vida precisa, realmente, ser vivida. Nem mesmo a idade, a falta de visão que ficou prejudicada após os 90 anos, ou o fato de não andar se torna um obstáculo para não agradecer diariamente pela sua existência. Com certeza, alcançar os 100 anos ainda lúcida e repleta de histórias, assim como a nonna, é o melhor presente que alguém pode ganhar durante a vida!

