Azambuja, o ponto de chegada
ago 19th, 2010 | por Jornal Vanguarda | Categoria: EspecialApós o desembarque no porto de Laguna, em 1877, os primeiros imigrantes rumaram ao Poço Grande, no rio Tubarão. De lá, a dificuldade só aumentou, já que o percurso teve de ser feito a pé, pela mata à dentro, sem qualquer tipo de auxílio. Costeando a beira do rio, subindo e descendo montanhas, os colonizadores iam abrindo trilhas para que os próximos a chegar encontrassem, ao menos, um caminho a seguir. O destino deles era Azambuja, a principal colônia italiana da região. Fundada em 1877, o local recebeu os primeiros imigrantes em 28 de abril do mesmo ano. A primeira leva tinha 90 famílias, num total de 291 pessoas, que começaram a colonização do sul do Estado.
Elzo Felippe, neto do imigrante Luiz Felippe e residente em Azambuja, lembra claramente das histórias que o avô contava sobre a difícil chegada ao Brasil. “Ele levou 36 dias para aportar em terra firme e veio com a segunda leva. Recém-casado com Cleonice Fermione, viu mulheres e crianças morrerem no navio e serem jogadas ao mar”, diz. Tal como Felippe, centenas de outros italianos foram alojados em pequenos ranchos, cobertos com palha, até a entrega de seus lotes, de acordo com o número que havia sido sorteado.
Os novos habitantes das “terras canarinhas”, então, já tinham onde ficar e um lugar para recomeçar. Estavam longe dos navios sem estrutura, longe das difíceis viagens mas, por consequência, longe da pátria, da família e dos amigos. “O jeito era começar tudo de novo. Se na Itália era um sacrifício tremendo conseguir sobreviver, aqui era muito pior. Construíram pequenos casebres com barro e pedras de rio e da mata, e viviam da caça, da pesca, da colheita de frutas e do palmito, que na época era abundante. Toda a comunidade de Azambuja foi desmatada por eles. Eram árvores enormes, com centenas de anos, derrubadas pelas mãos dos colonizadores”, garante Elzo.
As ferramentas trazidas da Itália foram muito úteis para o trabalho. Manuseando machados, picaretas, topeadores e outros aparelhos, os imigrantes transformaram o local, que até então era um pedaço de mata virgem, em uma “piccola Itália” em solos brasileiros. Receberam do Governo sementes de milho e feijão, prepararam a terra e plantaram o que possuíam. Os terrenos acidentados, que muito se pareciam com os da Itália, aumentavam ainda mais as dificuldades encontradas. “Entregaram para os colonos os piores lotes, com poucas condições de plantio e terras irregulares, mas mesmo assim eles não desistiram. Quando começaram a colher milho, faziam polenta diariamente, para dar mais energia para trabalhar. E assim eles sobreviviam, de forma simples, mas com muita coragem”, fala.
Silvio Felippe, filho de Elzo e bisneto de Luiz, afirma que os galhos de parreira eram presença obrigatória nas bagagens. Quando estabeleceram residência aqui, começaram a plantar as mudas da uva Isabel nas árvores “Rabo de Mico”. O vinho não podia faltar na mesa dos nossos imigrantes, não é? Quando a fruta estava madura, os cachos eram depositados por aproximadamente 15 dias no sótão das casas, a fim de baixar a acidez e aumentar a glicose. Os italianos eram muito inteligentes. Deixavam os grãos fermentando no porão, porque lá a temperatura era mais agradável, e não oscilava muito, ficando na média dos 20 graus”, conta Silvio.
Aos poucos, cada vez mais levas de imigrantes iam chegando a Azambuja. A colônia foi ganhando notoriedade e se tornou uma das mais importantes do Estado. Ali era decidido pra onde iam os italianos e qual o destino de cada um deles. Conforme Elzo, algumas famílias que ficaram na comunidade continuam lá até hoje. “Muitos descendentes dos colonizadores ainda permanecem em Azambuja. Alguns exemplos são os Michelleto, Formigoni, Fretta, Ghisi, Pignatel, Felippe, Demo, De Biase, etc.”, ressalta.
A comunidade foi crescendo cada vez mais, e milhares de italianos por ali passaram. Logo nos primeiros anos da colônia, um telefone foi instalado no local, pouco tempo após a invenção do aparelho. O mesmo ocorreu com os correios e telégrafos, que tiveram uma pequena agência montada. Com relação aos sistemas de comunicação, Azambuja possuía o necessário para o seu bom desenvolvimento. Aos poucos, casas comerciais foram sendo abertas, uma cooperativa foi fundada e indústrias abriram as portas, tais como serraria, fábrica de gasosa, sapataria, latoaria, atafona, entre outras. O terreno, apesar de ser acidentado, era fértil. Os colonos trabalhavam com disposição, já que as terras eram suas. A produção só aumentava e Azambuja crescia cada vez mais. A expectativa era de que a comunidade virasse um polo na região. Porém, não foi bem isso o que aconteceu.
Com a construção do ramal da estrada de ferro que ia de Esplanada a Urussanga, o movimento na colônia italiana diminuiu consideravelmente. A produção caiu e, mesmo com a disposição dos italianos, a lavoura não pôde ser mecanizada por causa das terras irregulares. Percebendo que a comunidade não tinha perspectiva de crescimento, muitos deles passaram a investir em outras cidades. “Nessa época, Azambuja, Treze de Maio e Pedras Grandes ainda eram distritos de Tubarão. Por volta da década de 1950, as duas localidades se emanciparam e somente Azambuja continuou sendo distrito do município de Pedras Grandes. A partir daí, a então colônia italiana mais importante do sul estagnou no tempo. Atualmente, residem aqui aproximadamente 3 mil pessoas, que é praticamente nada comparado aos milhares de imigrantes que por aqui passaram”, completa Elzo.
Azambuja foi o ponto de partida para a nova vida em solo brasileiro. De lá, saíram imigrantes para as mais diversas comunidades da região. Desmatar, plantar, colher e construir foram os primeiros passos para iniciar uma nova vida. Por mais que a colônia não tenha evoluído como havia sido planejado, Azambuja teve um papel fundamental na construção e colonização de todo o sul catarinense. Os traços da imigração ainda continuam lá, nas ruínas das casas, no capitel, nos prédios construídos com pedras do rio e da mata. A comunidade pode não ter se tornado um pólo econômico, mas com certeza constitui-se de um dos mais belos conjuntos arquitetônicos e históricos de toda a região.

