O início e o fim da Escola Italiana Fascio
jun 10th, 2010 | por Jornal Vanguarda | Categoria: CulturaNa época em que os italianos chegaram a Urussanga, muitas dificuldades foram encontradas. Aqui existiam animais selvagens, bugres, não haviam casas, nem nenhum tipo de transporte. Os imigrantes foram praticamente deixados ao relento, sem ninguém que intercedesse por eles. Entristecidos com as condições em que viviam, clamavam por ajuda às autoridades competentes da época: ‘Noi viviamo como Le bestie, i nostri figli non ricevono alcuna instruzione’ (Nós vivemos como animais selvagens, e nossos filhos não recebem nenhuma instrução). Segundo o urussanguense Achile de Pellegrin e sua esposa Zelinda, diante de tanto desespero e angústia, os colonizadores solicitaram ao Cavalheiro Gherardo Pio Di Savoia, o Consule de Desterro (atual Florianópolis), que interviesse junto ao rei da província do Vêneto, Humberto II, e ao Governo Italiano, recursos para a construção de uma escola na vila de Urussanga.
“Este apelo aconteceu entre os anos de 1896 e 1898. Depois de tanto insistir, foi construída a Escola Italiana Fascio, onde hoje é o SUS, em cima de uma grande rocha. A casa media nove metros de largura por 17 de fundos. Os tijolos vermelhos usados na edificação eram da Olaria que pertencia ao senhor Marcos Madalena Mariot, da comunidade de Rio Salto. Era um bonito prédio, grande, como se fosse um galpão”, lembra Achile. Era dentro daquelas quatro paredes, que não receberam reboco, que os filhos de imigrantes eram alfabetizados. Na época, todas as disciplinas deviam ser dadas na língua italiana.
Conforme Zelinda, o primeiro professor da Fascio foi Salvadore Taranto, que passou pela escola por volta de 1905. Depois, novos educadores chegaram para trabalhar no local. “Em 1910, Giuseppe Caruso Mac Donald começou a lecionar lá. Além dele, havia o cônsul italiano, que residia em Florianópolis, o senhor Perone. A escola era referência, os professores vinham de outras regiões e até mesmo de outros países”, diz Zelinda. A Fascio foi o primeiro educandário da Beneddeta, e um dos primeiros da região. Para ensinar os alunos, o material didático veio todo da Europa. Na capa do livro, uma advertência aos estudantes: ‘Farforelo, farforelo, tu rimani um asinello, eu fachuto rubicone, chi non as ledere sua assinatura, será um asino de natura’. Este provérbio se encontrava na primeira página do livro e queria dizer: Garoto, garoto, tais imitando um burro, eu fiz e escrevi, quem não sabe ler sua assinatura, é um burro de natureza.
Poucos anos depois, um desentendimento entre o professor Caruso, o cônsul e os pais dos alunos deu fim à Fascio. A escola que foi conquistada com tanto empenho por parte dos imigrantes fechou as portas, dando fim à alfabetização italiana na cidade. Porém, o prédio continuou de pé e teve grande serventia para o município. Foi ali que houve um treinamento para os agricultores aprenderem a cultivar o fumo. Para isso, um agrônomo italiano veio exclusivamente à Benedetta. Na mesma época, um técnico espanhol aqui chegou para ensinar a fabricar fumo de corda. “Os agricultores, então, aprenderam as técnicas do cultivo. Porém, por causa de desentendimentos políticos, as autoridades da época pagaram pessoas para acabar com as plantações de fumo. Uma única noite foi suficiente para que isso acontecesse. Por causa disso, o agrônomo Cavalazi foi embora para Tubarão e o espanhol, para a Argentina”, garante Zelinda.
Depois deste acontecido, que entristeceu muito os agricultores, os treinamentos agrícolas deixaram de ser feitos no local onde funcionava a Fascio. A edificação passou a ser sede da escola de música da cidade e serviu como local de orações, enquanto a Igreja Matriz não era finalizada. “Ali foram realizadas muitas missas, festas, casamentos, batizados e enterros. As crianças da época frequentavam a catequese e recebiam o sacramento da eucaristia”, ressalta Achile. A edificação também serviu como clube, onde eram feitos os bailes e festas, e foi sede do Urussanga Futebol Clube. “Depois de tantos anos servindo a comunidade, aquele grande espaço foi demolido no ano de 1941. As ruas precisavam ser abertas, pois o Grupo Escolar Barão do Rio Branco havia sido recém-inaugurado. A grande pedra que dava sustentação à Fascio foi toda cortada pelos senhores Olívio Mariot, Anacleto Nichele e outros profissionais”, lembra Zelinda.
A escola italiana foi conquistada através de muito esforço. Nela, diversas atividades foram realizadas e dezenas de crianças aprenderam um pouco mais sobre a cultura de seus pais. O educandário fechou as portas, mas o enorme prédio não deixou de ser empregado para a realização de diferentes tarefas comunitárias. Na década de 40, no entanto, o prédio foi ao chão. Assim como tantas outras narrativas, a Fascio teve um belo início e um triste fim. “Por ser um patrimônio do Governo Italiano, a primeira escola do município foi demolida e, infelizmente, desapareceu da história de Urussanga”, diz Zelinda.

