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A fábrica do pioneirismo

mar 4th, 2010 | por Jornal Vanguarda | Categoria: Especial

Falar sobre a história da vitivinicultura da Benedetta e não citar a Vinícola Caruso Mac Donald é praticamente impossível. Uma fortaleceu a outra, e juntas foram imprescindíveis no reconhecimento de Urussanga como ‘Terra do Bom Vinho e da cultura italiana’ na década de 50. Criada em 1913 pelo imigrante Giuseppe Caruso Mac Donald, a fábrica de vinhos elevou o nome da cidade nacionalmente. Foram anos de ascensão comercial, o que resultou na venda de bebidas para os mais diversos Estados Brasileiros. No auge da produção, a vinícola foi considerada a maior de Santa Catarina, tanto em tamanho quanto em fabricação. A capacidade de estocagem chegava aos 2 milhões de litros, divididos em tinas que armazenavam até 90 mil litros cada.

A Caruso Mac Donald foi a primeira empresa do setor fundada em Urussanga. Giusepe, o primeiro proprietário, nasceu na Sicília no ano de 1869. Lá cursou direito na Universidade de Palermo e estudou latim, grego, alemão e francês. Chegou ao Brasil no início do século XX com a função de acompanhar as levas de imigrantes no Estado, dando-lhes todo o apoio necessário. Após ser nomeado regente consular em Florianópolis, decidiu se estabelecer em Urussanga, onde escrevia um jornal chamado La Pátria.

Aqui se casou, constituiu família e começou uma nova vida longe da terra natal. Como era um homem influente na época, possuía muitos contatos e tinha grande proximidade com os imigrantes estabelecidos em São Paulo. Devido a algumas amizades que o homem possuía, lhe surgiu a possibilidade de trazer diferentes variedades de uvas para a região de Urussanga. Pelas mãos do imigrante, a uva Goethe foi trazida para a cidade e distribuída aos agricultores. Foi assim que a espécie chegou à Benedetta: Graças ao fundador da maior vinícola que o município já teve em toda sua história.

Com a fundação da Vinícola Caruso, a cidade começou a ser conhecida em todo o Brasil pelos vinhos que produzia. “A empresa foi fundada em 1913 e a partir daí só cresceu. O interessante é que o primeiro contrato social foi assinado somente em 1942 e a sociedade tinha o prazo de validade de 10 anos, com a possibilidade de ser prorrogado. Em 1953, portanto, a Caruso deveria confirmar ou não a presença de sócios na fábrica, e até hoje se mantém em funcionamento”, explica o atual gerente da empresa, que hoje é intitulada de Bebidas Uru, Odilon João Barbosa.

Com o sucesso cada vez maior que a Vinícola alcançava, novas bebidas foram incorporadas às opções disponíveis. Além do vinho, a Caruso lança, por volta de 1957, a linha de vermute branco e tinto, fernet, bitter e o ChamaUru, uma aguardente que tornou-se famosa por ter na composição uma erva que dificilmente é encontrada atualmente. “O nosso vermute sempre teve um sabor diferente, mais gostoso. Foi uma criação própria, com ervas naturais e frescas, diferentes das que são encontradas hoje em forma de líquido ou trituradas”, explica Odilon. 

Foi a partir do início dos anos 90 que a renomada Vinícola Caruso Mac Donald deixou de ser produtora para ser somente engarrafadora de vinhos. Hoje, a empresa produz 15 tipos de bebidas consideradas “quentes”. Fabrica, em média, entre 3 e 4 mil dúzias de litros por mês que são vendidos para diversas cidades do estado de Santa Catarina. Da família, ninguém restou para continuar tocando o empreendimento de Giusepe. A vinícola abriu as portas, alcançou sucesso nacional e hoje é somente uma lembrança na memória daqueles que vivenciaram os anos dourados da Caruso Mac Donald.

O italiano pioneiro na produção de vinhos em série na Benedetta  teve sete filhos: João, Aldo, Laerte, Valéria, Roberto, Adriana e Gina. Porém, somente Laerte e Valéria se envolveram diretamente na fábrica. Os outros seguiram suas vidas e tomaram outros rumos. Segundo Cirilo de Castro Faria, casado com uma das netas do italiano, a empresa era familiar e poucos descendentes tiveram interesse em continuar trabalhando lá, até porque exerciam outras atividades profissionais. “Entre 1971 e 1982 eu gerenciei a empresa, porque não havia ninguém da família que pudesse fazê-lo. Laerte e Valéria já haviam falecido e os netos mudaram-se de cidade, especializando-se em outras áreas. Hoje, o maior sócio da fábrica não tem nenhum tipo de vínculo com os Caruso”, diz Cirilo.

Atualmente, a empresa que tanto orgulho e reconhecimento trouxe à Benedetta está em ruínas. Grande parte da estrutura construída por Giusepe encontra-se completamente deteriorada ou já desmoronou. As grandes tinas, parafinadas em seu interior e feitas de tijolos em cunha estão à mercê dos vendavais, chuva, sol e sereno. Elas são o símbolo de uma época em que o vinho era, realmente, o símbolo inveterado da cidade de Urussanga. Representam o trabalho de um homem que com força e dedicação conseguiu construir um império na Benedetta. Império este que está caindo, e não por invasões ou guerras, mas sim pelo abandono de quem deveria preservá-lo.

Por ser Urussanga uma cidade histórica e turística, não seria importante zelar por um patrimônio tão rico culturalmente? A Caruso Mac Donald é o símbolo maior da vitivinicultura da cidade. Foi a primeira empresa do setor fundada no município, chegou a ser a maior do Estado e seu fundador foi quem trouxe a uva Goethe a Urussanga. A Vinícola é um marco na história da cidade e hoje, infelizmente, é agredida cruelmente pela ação do tempo. Em silêncio, sem que ninguém saiba, sem que ninguém perceba…

2 comentários
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  1. É com imensa dor no coração que tomo conhecimento do estado em que se encontra a fábrica de vinho construída por meu avô Dr. Giuseppe Caruso Mac Donald…
    Ela já não pertence mais à nossa família, não é mais de nossa responsabilidade….
    Gostaria de chamar atenção do Prefeito e demais políticos da nossa querida Urussanga para que alguma coisa seja feita…Está na hora de reviver a parte da história de Urussanga apagada na nossa memória….A Fábrica é um patrimônio, deve ser tombada e recuperada como um monumento….
    Porque não recuperá-la e transformá-la em uma Escola de Enologia ,ou uma Faculdade de Enologia ???
    Para quem ainda não sabe ,a primeira fábrica ( uma pequena casa) que meu avô construiu exatamente no lugar da atual ,nasceu para que alí os colonos aprendessem a fazer um bom vinho,” menos ácido” como dizia meu Nonno que era um advogado, laureado em Letras( alemão e francês) e em certo momento transformou-se em professor de Enologia para ajudar os seus “connazionali”, como dizia….
    Munido de livros de Agricultura e Enologia, enviados da Itália por sua mãe , convocava os colonos para aprenderem a melhorar a qualidade dos vinhos coloniais…Salvem a Fábrica…Tristeza….Ceres

  2. Como pesquisador e escritor gostaria de conhecer a história de Giuseppe Caruso Mac Donald. Pergunto: Onde poderia encontrá-la? Ou com quem poderia me corresponder para conhecer mais sobre este imigrante?
    Fico no aguardo.

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