A Benedetta e o Cavalo de Tróia
nov 12th, 2009 | por Jornal Vanguarda | Categoria: ArtigosO livro “A Marcha da Insensatez”, da historiadora americana Bárbara W. Tuchman, faz uma análise intrigante de acontecimentos históricos mundiais, cujas consequências desastrosas nada mais foram do que a insistência, e porque não dizer, teimosia de líderes e governos em práticas contrárias aos seus próprios interesses. De Tróia ao Vietnã, a autora faz uma brilhante exposição de situações onde a inteligência deu lugar à estultice, culminando em desastres históricos. Num ponto do livro (bem no começo) ela questiona o fato de os homens com poder de decisão política tão frequentemente agirem de forma contrária àquela apontada pela razão. Num parágrafo seguinte, ela volta a questionar: por que os dirigentes de Tróia permitiram o ingresso dentro de seus muros daquele cavalo de madeira extremamente suspeito, mesmo sabendo que poderia tratar-se de um ardil engendrado pelos gregos, seus inimigos? Naturalmente a decisão de deixar entrar aquele descabido equino de madeira no interior de suas fortalezas foi um ato insensato dos troianos, que culminou com a queda de Tróia.
Mas o que o famoso Cavalo de Tróia tem a ver com a nossa quase pacata Benedetta?
O nosso Cavalo de Tróia é essa mania tola de buscarmos a qualquer preço o desenvolvimento econômico.
O desenvolvimento está necessariamente ligado à instalação dessa ou daquela empresa. Não está apenas no montante de grana que uma ou outra atividade gera, não está somente na construção de arranha-céus no lugar dos simpáticos e aparentemente improdutivos casarões do século XX.
Num passado recen te, nós abrimos os portões para um desses cavalos e o resultado negativo nos amarga até hoje. Centenas de hectares degradados pela exploração desgovernada do carvão. Isso sem falar nos problemas sociais resultantes daquela corrida desenfreada pelo o “ouro preto”.
Agora, a missão do novo Cavalo de Tróia é minar o Patrimônio Histórico, que não se restringe apenas às 25 edificações tombadas. Elas estão entregues às traças e aos cupins. Não são poucos que as consideram um entrave ao crescimento do município. Para muitos, os casarões deveriam ceder lugar às modernas construções para abrigarem lojas, restaurantes, escritórios, etc… Um grande número de pessoas questiona: para que servem essas velharias? Outros afirmam: a cidade precisa crescer! E assim, as coisas vão marchando para a insensatez.
Mas então o que fazer? Que tal começar agindo pela razão? Nossas casinhas antigas poderiam muito bem ficar onde estão, bem cuidadinhas, servindo a atividades culturais e ao turismo. O centro financeiro e comercial poderia ser estimulado a se desenvolver em outras áreas da cidade. Por que não?
São inúmeros os exemplos de lugares que estão se desenvolvendo economicamente com a conservação do patrimônio histórico aliado às atividades ligadas a cultura e ao turismo.
Para isso, é necessário planejar e depois agir. Basta deixar de lado as vaidades, os joguinhos de interesses e partir para a boa luta. É possível a convivência harmoniosa do passado com o presente. Tem um grande público que gosta de ver coisas bonitas, que gosta de ver “casinhas velhas”, que gosta de estátuas, que gosta de ouvir histórias, que gosta de uva, de vinho, que gosta de ver os engenhos movidos à água, de comer polenta com galinha, queijo e salame, de ouvir música, e tantas outras coisas que não causam tantos impactos ambientais.
O minúsculo município de São Martinho é um exemplo clássico do uso da inteligência para atingir o tão almejado desenvolvimento econômico. Lá, cada estradinha de chão batido do interior, cada riozinho, cada casarão antigo foi transformado em equipamento turístico. O resultado são dezenas de ônibus e centenas de automóveis visitando o município todos os fins de semana.
Toda aquela estrutura não se fez sozinha, num passe de mágica. Ali teve trabalho e vontade política, teve inteligência, ações coerentes e sensatas. Urussanga não é menos bela e nem tem menos potencial do que São Matinho. Aliás, a Benedetta tem muito mais coisas. Só não temos ainda práticas alinhadas com a razão, que expulsem os cavalos de Tróias e que nos levem à prática da sensatez.
Cesar Pereira
Jornalista
