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E a guerra continuava…

nov 5th, 2009 | por Jornal Vanguarda | Categoria: Especial

A convivência entre índios e italianos no início da colonização era amigável. Eles se ajudavam, caçavam juntos, trocavam utensílios e ferramentas. Porém, quando os bugres perceberam que aqueles imigrantes roubavam-lhe os alimentos e terras, decidiram reagir e tomar o que era seu por direito. Aí começaram os desentendimentos e iniciou uma verdadeira guerra que só acabaria anos mais tarde. A morte do jovem Giovani Baldessar, atingido por uma fecha enquanto cortava algumas árvores, foi a primeira de várias. Já o assassinato do bebê colocado dentro de um baú para ser protegido do ataque dos índios foi o segundo. E assim sucediam os crimes, de forma bárbara, sem poupar as mulheres, muito menos as crianças.

Em 1882 o jovem italiano Natal Coral chegou a Urussanga. Ele tinha 26 anos de idade e muitos sonhos que pretendia realizar. Embarcou no Vapor Poiton, em Nápoles, Itália, passou por Buenos Aires, Marselha e Rio de Janeiro. Ali, tomou outro navio que o levou a Desterro e Laguna. Chegou na Benedetta pouco tempo depois, fixando residência entre as comunidades de Rio Deserto e Caeté. Casou-se com a jovem Maria De Faveri, era agrimensor e amigo de toda a comunidade.

Cerca de dois anos depois do casamento, por um motivo que ninguém sabe ao certo, um grupo de índios roubou a esposa de Coral e levou-a embora. Foi uma surpresa para todos os conhecidos, já que o agrimensor trabalhava com a ajuda dos bugres. Para medir as terras e conhecer todas as picadas da mata, ele precisava do auxílio daqueles que conheciam cada pedaço de chão como ninguém mais. Eles davam-se bem, e se ajudavam mutuamente.

O sequestro da mulher deixou os italianos estarrecidos. Segundo o urussanguense Dério Lavina, enquanto ela estava sendo arrastada, fazia alguns cortes nas árvores por onde passava com a esperança de que o esposo visse e a achasse perdida na mata. Foi levada a uma tribo indígena e lá permaneceu por algum tempo. Alguns afirmam que ela tenha ficado poucos meses, outros, porém, alegam que permaneceu por lá mais de dois anos.

Há quem diga que enquanto ficou presa, Maria tentava se comunicar através de recados escritos em cascas de árvores, que eram transportadas pelas águas do rio. Assim, ela tentava avisar o esposo de sua localização e em que condições era mantida. Porém, isso não adiantou, nenhum destes recados chegou às mãos de Coral. Ele, por sua vez, perdia aos poucos as esperanças de ainda encontrá-la viva.

Certo dia, em um descuido do índio, a mulher conseguiu escapar da tribo. Contudo, o que ninguém esperava acabou acontecendo. “Quando foi para a casa, Maria estava grávida de um bugre. Não sabia o que o marido ia fazer, mas acabou aceitando e criou a criança como se fosse um filho”, explica Lavina. Apesar disso, Coral, com a ajuda de alguns amigos, entrou na mata para mostrar aos botocudos que aquilo não era coisa de se fazer.

Há relatos de que o homem agiu por pura vingança, outros alegam que ele foi pago para tal extermínio. Numa noite de festa para os indígenas, esperaram-nos dormir para poder atacar. “Tinha uma garoa fina, e os bugres haviam bebido um pouco. Repousavam tranquilos quando o italiano deu um tiro de espingarda em direção ao céu. Eles acordaram assustados e não tiveram tempo para reagir. Foram assassinados e as orelhas arrancadas e colocadas numa mala”, explica Aquiles De Pellegrin.

Ao todo, 32 índios foram mortos na chacina. Na bolsa, um saldo trágico de 64 orelhas, levadas até à vila para que todos pudessem ver. Quando as autoridades avistaram, mandaram jogar fora tudo aquilo, ou então os colonos seriam presos por tantos extermínios cometidos em uma única noite. Pouco tempo depois, em 1901, aos 45 anos de idade, Coral veio a óbito. Já a esposa, Maria De Fáveri, levada pelos índios e mãe de um filho deles, faleceu em 1923.

Segundo Pellegrin, os corpos dos botocudos foram tão bem escondidos que até hoje ninguém achou as ossadas. Elas devem estar em algum canto da cidade, enterradas ou submersas na água, como testemunhas de uma série de crimes bárbaros. Por mais tristes que tenham sido a morte destes 32 índios, que nem ao menos tiveram a chance de se defender, tudo foi motivado pelo amor de Coral pela esposa Maria. Se a narrativa é totalmente verdadeira, ninguém pode afirmar, afinal várias versões já foram ditas para explicar o mesmo fato. A realidade é que esta é mais uma daquelas histórias que valem a pena serem contadas e repassadas para as gerações futuras, já que fazem parte da biografia da Benedetta!

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  1. Há um erro quando do relato do imigrante Natal Coral: saindo de Nápoles ele não poderia ter ido até Buenos Aires (Argentina) e depois passar por Marselha e Rio de Janeiro já que Buenos Aires fica localizada na América do Sul. Isto equivaleria a sair da Europa vir até a América do Sul, voltar novamente para a Europa (Marselha) e retornar para a América (Rio de Janeiro).

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