A viúva
out 29th, 2009 | por Jornal Vanguarda | Categoria: CrônicasEra Dia de Finados. A viúva colocou flores no túmulo do marido, recém morto em acidente de automóvel na BR-101. Ao lado dela estava a filha, uma menina de seis anos, provavelmente. As duas fizeram uma oração e permaneceram por mais alguns minutos em silêncio, junto ao túmulo do finado.
A poucos metros dali, eu as observava pela lente da minha câmera. Fotografava para o jornal da cidade. Tinha a missão de captar imagens reveladoras das pessoas, sobre o sofrimento provocado pela perda de alguém próximo.
Enquadrados na minha objetiva, a viúva, a menina, o túmulo e o singelo vaso de flores. Um retrato sombrio e, ao mesmo tempo, poético. Ela permanecia calada, olhando a fotografia do falecido sobre a lápide, como quem cobrava explicações de um ato falho da vida. Apesar disso, mantinha uma discreta elegância, dando a impressão de submeter o menor dos movimentos ao crivo da razão.
Vestia um conjunto azul marinho composto por saia e casaco. Possuía pernas bonitas, olhos retintos e cabelos até a altura dos ombros.
Eu mal conhecia o morto daquele túmulo. O pouco que sabia é que era um sujeito bem de vida, com inúmeras propriedades no Mato Grosso, indústrias em São Paulo e hotéis espalhados nas principais praias do país. Uma vez cruzei com ele no corredor de um hotel. Foi só um bom dia, como vai? Ocupadíssimo, viajava muito, no Brasil e exterior. Enquanto ela ficava boa parte do tempo em casa, na companhia da filha, conformada em sua solidão de mulher, resistindo com resignação às vontades que lhe estremeciam o corpo nas infindáveis noites vazias. No dia do acidente, eu fora cobrir o fato para o jornal. Junto dele havia uma jovem, que também morrera na colisão. Houve boatos de que era a amante do falecido.
Depois da oração e do breve momento em silêncio junto ao túmulo, a viúva desfez seu semblante lúgubre. Parecia invadida por uma alegria surpreendente, como alguém que está prestes a recuperar a liberdade perdida. Pegou a filha pela mão, deu-lhe um beijo e saiu do cemitério. Antes de misturar-se à multidão, olhou para mim e sorriu. Fiz-lhe o último retrato como um aceno, desejando felicidade e vida longa.
* César Pereira
Jornalista

