“Il palh di San Martín”
out 22nd, 2009 | por Jornal Vanguarda | Categoria: Bibiana Pignatel, ColunistasUma história que ouço desde criança, é sobre “il palh di San Martín” (em dialeto, “o madeiro, lenho de São Martinho”). Um capitel, na verdade.
Ele deixou de existir há mais ou menos 60 anos, no local que antigamente interligava as comunidades de Linha Rio Maior e Rio Maior (hoje também São Valentim).
O marco ainda está lá: as pedras que suportavam a ponte (não a ponte de hoje, mas a antiga) e ao lado, dois velhos coqueiros marcam o espaço onde antes havia aquilo que era considerado sinal de respeito e religiosidade.
Foi meu vizinho e padrinho de minha mãe, Vítor Feltrin, no alto de seus 90 anos quem passou algumas informações sobre o lendário lenho com a imagem de São Martinho.
Antes da família de meu avô (Bendo) mudar-se para a propriedade, fora os De Bettio os primeiros proprietários, que tiravam seu sustento de uma olaria e foram eles que trouxeram o quadro com a imagem de São Martinho, da Itália.
O santo era invocado como “San Martín dei Venti” (São Martinho dos Ventos). Como hoje, reza-se para Santa Bárbara quando um temporal está por vir, naquela época, fazia parte da religião católica difundida aqui pelos italianos, pedir ao santo sua intercessão contra os vendavais.
Conforme dados coletados na Internet, São Martinho foi o primeiro santo não-mártir da Igreja e é considerado padroeiro dos alfaiates, cavaleiros e pedintes, uma vez que uma de suas passagens mais citadas é a de quando ao avistar um mendigo morrendo de frio, cortou ao meio sua manta de guarda imperial (pois era soldado) e deu-lhe uma parte. À noite sonhou e viu Jesus envolto naquele pedaço de manta, dizendo: “Martinho, ainda não batizado, deu-me esta veste”. Este foi o episódio crucial para a conversão do santo, lembrado todos os anos no dia 11 de novembro.
Agora, quanto ao motivo que o faz ser invocado contra os ventos, ninguém soube me dizer a resposta. E se alguém ler esta coluna e souber o por quê, peço que entre em contato para que publiquemos na próxima edição.
Enfim, “il palh di San Martín” foi posto e também retirado pela família de Stefano De Bettio e Maria Feltrin, que tiveram seis filhos, um deles batizado com o mesmo nome do santo.
O lenho (ou capitel) era caracterizado com uma imagem fechada em vidro com uma pequena cobertura, feita em madeira, mesmo, semelhante a uma casinha. Sob a imagem, uma fenda, que servia para o depósito das ofertas. Conta Vítor Feltrin, que os De Bettio, ao efetuarem a limpeza do capitel, invadido por marimbondos e morcegos, encontraram “undeze fiorini”. Segundo o nonagenário, valor equivalente para a compra de “meia colônia de terras”, na época, termo utilizado para de 15 hectares.
Conforme o relato de Vítor, o dinheiro foi repartido entre os filhos de Stefano De Bettio, e depois de certo tempo, o capitel foi retirado do local (até hoje não se sabe o motivo). E agora nós, os Bendo, temos o desejo de reconstruir no local aquele capitel onde tantas vezes, homens e mulheres tiraram o chapéu em sinal de respeito e fizeram o sinal da cruz.

