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Ciúmes e raiva: ingredientes principais de um crime bárbaro

out 22nd, 2009 | por Jornal Vanguarda | Categoria: Especial

fotos-1o-014O som das cigarras e os pingos da chuva embalavam o caminhar de Ângelo Cologni. O jovem de aproximadamente 25 anos completava o percurso realizado diariamente durante a noite: ir do trabalho até a casa dos pais, em um cenário assustador. A estrada era escura, sem iluminação, e a mata virgem cobria todos os cantos por onde passava. Ele não enxergava nada, apenas alguns palmos à sua frente. De repente, ouviu alguém o chamando pelo nome. “Ângelo, Ângelo…”. Segurou com firmeza o pedaço de queijo e os ovos de galinha que tinha no bolso. Olhou para trás e não teve tempo para se defender. A bala o a
certou em cheio no peito.

Belvedere Baixo, 1931. Era festa de Santa Luzia, padroeira da comunidade. Por tradição, os moradores apostavam corridas de cavalo como forma de festejar a data. Numa destas competições, se preparavam para correr o cavalo pertencente aos cunhados Valdomiro e Dante Sangaletti, e a égua - que diziam ser muito rápida – do jovem Ângelo Cologni. A largada foi dada e como já era esperado a potranca de Cologni venceu a aposta. Foi aí que iniciou o grave desentendimento que terminou de forma trágica.
Os cunhados não aceitaram a derrota e ficaram completamente irritados com o resultado da competição. Ao chegar em casa, combinaram que a melhor maneira de superar este acontecimento seria tirar a vida do dono da égua. A partir daquele momento, Ângelo já estava com as horas contadas.

No dia seguinte, já pensando na ideia de desistir do assassinato, os cunhados foram influenciados por Luiza e Maria, (mãe e esposa de Valdomiro, respectivamente) a cometerem o crime. “As mulheres diziam que se eles não o matassem, elas mesmas o fariam. E para garantir que o jovem estivesse morto, eles deviam trazer-lhes o coração e a língua para fritar”, relata Dério Lavina, 89 anos, morador da localidade. Segundo o sobrinho de Ângelo, Ulindo Cambruzzi, 77 anos, outro fato também poderia ser o responsável por ter culminado este acontecimento. “Dizem por aí que Ângelo teria mexido com a mulher de Valdormiro, conhecida como Maria Doce. A corrida de cavalos, então, foi a gota d’água que fez o homem querer se vingar”, explica ele.

Ângelo trabalhava na roça junto de um vizinho. Naquela noite fatídica, uma segunda-feira depois das festas de Santa Luzia, jantou na casa do patrão. Este lhe deu um pedaço de queijo e alguns ovos de galinha para que ele levasse embora, já que sua família tinha poucas condições financeiras. Comeu macarrão e foi para casa. Caminhando pelas estradas escuras a passos largos para escapar da chuva, ouviu o seu nome por trás das árvores. Temendo ser alguém com a intenção de roubar os alimentos que tinha nos bolsos, segurou-os firme. Olhou em direção ao chamado. De trás de uma grossa árvore de peroba, um tiro atingiu-lhe em cheio no peito. Caiu no chão ainda com vida, mas Dante e Valdomiro não lhe pouparam. Cortaram a garganta de Ângelo e arrancaram a língua e o coração, como as mulheres haviam pedido.

Após cometer o crime, deixaram o corpo no meio da estrada, fugindo em disparada para a casa. Lá, entregaram os órgãos para as mulheres, que fritaram com a intenção de comê-los. “As pessoas me contaram isso há muito tempo e eu lembro como se fosse hoje. Dizem que quando foram cozinhar a língua, ela pulava da frigideira, não parando dentro. As panelas também começaram a se mexer, e voavam por cima do fogão”, fala Sabino Colonhi, sobrinho de Ângelo, de 68 anos de idade. Segundo Ulindo , ninguém teve coragem de ingerir o coração frito. “Elas prepararam, mas não conseguiram comer o órgão. No fim, deram tudo para o porco, que na mesma hora ficou louco”, explica ele.

No dia seguinte, não estranhando a ausência de Ângelo, já que ele dormia fora algumas vezes, o pai e os seis irmãos foram para a roça trabalhar. Caminhavam tranquilamente quando avistaram, de repente, o corpo do jovem atirado no canto da estrada. “Os bichos do mato já haviam mordido algumas partes onde havia sido feito o corte. Para sua tristeza, o pai foi o primeiro a vê-lo daquele jeito”, diz Lavina.

O enterro ocorreu no mesmo dia em que o corpo foi encontrado. Não contentes com o crime cometido, os cunhados Dante e Valdomiro planejaram assassinar Alexandre Sangaletti. E o motivo era tão banal quanto a corrida de cavalos ou os ciúmes por Maria Doce: Alexandre defendia Ângelo, e não se conformava com o jeito com que foi morto.

No mesmo dia foram até a casa de Sangaletti resolver mais este problema. Encontraram, próximo da residência, uma mulher que limpava uma roça de arroz. Perguntaram-lhe se ele se encontrava em casa. Como estava trabalhando, ela disse que não sabia. Os homens, então, tiraram o revólver do bolso e afirmaram que ela tinha a obrigação de saber onde ele estava. Ao fazer isto, a mulher saiu correndo para a casa, falando para a mãe o que havia acontecido.

“Nesta mesma hora, o senhor Alexandre passava pela frente da casa da mulher para ir até a roça. Ela alertou-o e pediu para que ele não fosse até lá, senão seria assassinado. Convencido por elas, que aparentavam estar desesperadas, voltou para o lugar de onde havia saído. Os criminosos, não contentes com isto, começaram a rodear a casa do homem, esperando o momento oportuno para colocar em prática aquilo que estavam planejando”, explica Dério.

Quando os moradores de Belvedere souberam do que estava acontecendo, se mobilizaram e montaram guarda na casa do homem. Enquanto isso, a polícia foi avisada e veio atrás dos assassinos. “Dona Luiza, mãe de Valdomiro, jurava que seus filhos não tinham feito nada disso, que era tudo invenção dos moradores de lá. Porém, quando foi levada a Treviso na delegacia, eles penduraram-na pelos braços, e foi aí que ela confessou que eles eram mesmo os culpados pela morte de Ângelo e pela tentativa de assassinato de Alexandre”, explica Ulindo.

Quando chamados para comparecer ao local e falar com o delegado, mesmo alegando serem inocentes, o dois foram presos e levados para a cadeia. ‘Ficaram lá por pouco tempo, já que fizeram um acordo com os policiais que os deixaram fugir. Depois disso, nunca mais se ouviu falar dos dois assassinos que aterrorizaram a comunidade de Belvedere”, explica Dério.

Hoje, à beira da estrada da localidade, uma cruz simboliza o cruel assassinato ocorrido no início da década de 30. As flores que rodeiam o objeto desabrocham a cada estação, como uma lembrança viva de um episódio que marcou todo o bairro. Ela está lá, e é o marco de um crime tão desumano. O verdadeiro motivo deste assassinato perverso ninguém sabe ao certo, só têm-se a certeza de que foi cruel a maneira que Ângelo morreu. Por uma simples corrida de cavalos ou ciúmes de Maria Doce, o fato é que a estrada de Belvedere foi o cenário para uma das mais macabras e estranhas histórias que Urussanga já presenciou.

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