Dragões da Incompetência
out 2nd, 2009 | por Jornal Vanguarda | Categoria: ArtigosDeixando de lado a origem etimológica do termo, a burocracia é comumente entendida como sistema de práticas técnico-administrativas-regulamentadas ou consagradas pelo uso – a serviço do homem. Acompanham-na, sempre, idéias de papel, requerimento, tramitação, funcionalismo público, processo, deferimento, indeferimento, registros de toda ordem. Mas, apesar de não estimular fácil adesão espiritual, é a burocracia, em sua essência ordenadora, indispensável instrumento de controle social, destinado, sobretudo – posto que subordinado aos princípios legais – a conciliar os justos interesses coletivos e individuais.
O Estado, o município em sua precípua missão de promover o Bem Comum, a institucionaliza e exercita, dela recebendo diversificadas influências, passíveis de permanente avaliação e correções. Mas, em todos os países do mundo, e, em especial, nos que experimentam rápidas mudanças sócio-culturais e econômicas, a burocracia ameaça transformar-se num fim em si mesmo, eis que se vai enredando nos tentáculos enfermos de seu próprio sistema. Convêm chamar esse estado patológico de burocratização, momento em que os meios se sobrepõem aos fins e a simpatia aos valores, descortinando triste elenco de distorções e injustiças na força da luz em penumbra ignorância.
Ressalta-se que a burocratização é defendida, com intransigência, pelo seu continuador ou criador, o burocratizado ou burocratizador, homem cujo papel se opõe ao do burocrata. Enquanto este, vital à burocracia, resolve problemas, dentro do possível, aquele cria problemas, tornando tudo ou quase tudo impossível. Em síntese é, o burocratizado, alguém que se auto-afirma pela negação. Senhor dos detalhes da engrenagem processual, tão estranho e negativo agente, inventa expedientes para ser temido, bajulado, prestigiado, sem o que engaveta, informa contra ou protela, valendo-se de sofismas ameaçadores que se agigantam frente a ignorância ou paciência alheias. Há burocratizado que o é a vários lustros, figura quase sempre “Técnica”, míope, na cegueira da visão, com crises hepáticas e intestinais, ranzinza, vítima da rotina que ele próprio herdou ou fez nascer, cultua e aprimora. Há, ainda, o burocratizado decaído por covardia; o que não se anima a assumir responsabilidade e sistematicamente a transfere, via de regra a outro, de índole semelhante, formando um rodízio embriagado pela mediocridade moral ou depauperado pela incompetência funcional.
Através dessa ou de outras formas comportamentais, talvez, o burocratizado exterioriza seu desajustamento, face à escassa margem de progresso social, econômico e cultural, que a organização burocrática tradicional lhe possibilita.
Eis um estudo que merece ser feito, com vistas à racionalização e Humanização do sistema prático mencionado acima.
No Brasil temos bons burocratas, burocratas apenas, burocratizados e superburocratizados. Apoio e estímulos devemos aos primeiros; guerra aos últimos (sem descuidar da pessoa humana), posto que os dragões da incompetência se arrolam entre os maiores obstáculos a luz da consciência nacional e a força do desenvolvimento do país.
* Magno Kucera
Consultor de Empowerment

