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Bengala conta história de Antônio Piva

out 2nd, 2009 | por Jornal Vanguarda | Categoria: Cultura

imagem-030A partir do momento em que começamos a estudar as histórias dos imigrantes italianos percebemos que, além de serem pessoas fortes e com muita garra, eles eram criativos e inovadores. Se todas elas fossem pesquisadas e publicadas, renderia um grande arsenal bibliográfico de belíssimas narrativas e gloriosas vitórias. Uma delas, que vale a pena ser contada para que todos tenham conhecimento, é a história de vida de Antônio Piva, imigrante que chegou a Urussanga por volta de 1880, e firmou residência na localidade de Linha Rio Caeté.

O ponto alto na narrativa deu-se quando ainda estava na Europa. Piva era escultor em madeira e pastor, e junto dos pais e irmãos cuidava de ovelhas. Trabalhava tranquilamente dia após dia, até que em 1867 assassinou um homem. Não se sabe ao certo o que aconteceu, mas o fato não acabaria assim, sem nenhuma pena ao autor do crime.

Conforme o urussanguense Aquiles Pellegrin, que ouviu muito falar desta história na infância, Piva negava insistentemente a autoria do assassinato. “Ele alegava que não tinha feito aquilo, porém, no dia do julgamento tudo foi descoberto. O juiz, que já estava acostumado com este tipo de acontecimento, falou que quem havia cometido o crime ainda estaria com as unhas sujas. Piva rapidamente abriu as mãos para averiguar se elas realmente guardavam alguma prova do ocorrido. Neste instante o juiz decretou a prisão do homem, que se entregou e foi para a cadeia”, diz Aquiles.

Enquanto estava preso (presídio agrícola), o italiano continuou trabalhando e cuidando de ovelhas. Também esculpia algumas peças de madeira e foi lá que fez uma das maiores, senão sua maior obra de arte. “Ele tinha o dom e era um legítimo artista.
Pegou alguns pedaços do caule de parreiras e em cada um deles falquejou uma fase de sua vida, desde o nascimento até o julgamento. Dá pra ver os pequenos detalhes em casa cena, até os dedos das mãos e as curvas das folhas de palmeira. Os pedaçinhos foram parafusados e, juntos, formaram uma linda bengala”, explica Aquiles.

Cada pequena parte que compõe o objeto tem uma cena da vida de Piva. Se observada atentamente, pode-se entender o que aconteceu nas mais diferentes fases. O último pedaço mostra o juiz dando a sentença e o italiano sendo levado à cadeia pelos guardas. Em outro desenho, é mostrado o assassinato que o levou à cadeia. Segundo Maria Aparecida João, que trabalha no Centro Cultural do Parque Municipal, os desenhos foram feitos com a ponta de um canivete durante o tempo em que permaneceu na prisão. “Ele fez uma peça por vez para trabalhar em todas as dimensões da madeira. Por isso o resultado saiu tão bonito”, explica ela.

Após ter cumprido a pena, Piva veio para o Brasil junto da esposa Maria Damian e do filho Plácido, de 5 anos de idade. Viajaram 40 dias de navio para aportar às terras brasileiras, e alguns dias depois chegaram a Urussanga. Aqui, o casal teve mais nove filhos e constituiu uma grande família. Logos após a chegada, o italiano foi trabalhar na abertura de estradas, serrarias e construções de prédios em outras cidades do Estado.  Continuou esculpindo, mas fez poucas peças. A bengala, no entanto, permanecia com ele onde quer que fosse.

Porém, chegou o dia que teve que se desfazer da peça, e existem duas versões para este fato. Conforme seu Aquiles, a obra foi doada à Igreja Matriz para ser leiloada, e o dinheiro arrecadado seria utilizado na construção do novo templo. Segundo ele, quem comprou o objeto foi o urussanguense Ângelo Antonio Nichele. No entanto, Maria Aparecida soube que Piva enfrentava sérias dificuldades financeiras na época. A solução foi pedir a Nichele uma quantia de dinheiro emprestada, e a bengala ficou como garantia de pagamento.

A única informação da qual ambos têm certeza é que a peça tão única ficou com Ângelo, que mais tarde veio a doá-la ao Museu Histórico Municipal, onde está até hoje. Lá, encontram-se mais duas peças esculpidas pelo imigrante italiano. Segundo Santo Tobias Piva, 60 anos, neto do escultor, o avô faleceu antes mesmo de ele ter nascido. “Não cheguei a conhecê-lo, mas ouvi falar muito bem de suas peças e da bengala onde ele mostra as fases de sua vida. Ele faleceu porque levou muitas picadas de abelha, e era alérgico. Com isso, passou a ter problemas mentais e foi levado ao Rio de Janeiro, com a esperança de que pudesse se recuperar. Lá, ele não resistiu e acabou morrendo.”, explica Santo.

Mesmo tendo deixado poucas peças, o legado de Piva continua vivo. A bengala e os outros objetos encontradas no Museu do Parque Municipal mostram um pouquinho da vida deste homem que, com certeza, não foi nada fácil. Depois de ser preso, cumprir a pena e de conquistar seu espaço em uma terra tão longe, foi atacado por um enxame de abelhas, fato este que o levou a ter sérios problemas mentais. A história de Antonio Piva é uma daquelas que vale a pena ir atrás, saber detalhes e entender tudo o que aconteceu, assim como tantos outros imigrantes que fazem parte das ricas lembranças da nossa Benedetta.

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