Bairro Rio Carvão e a peste de 1880
set 4th, 2009 | por Jornal Vanguarda | Categoria: CulturaQuando chegaram à Benedetta, os colonizadores encontraram muitas dificuldades nas terras brasileiras. Eram bugres, animais selvagens e mata virgem que preocupavam e amedrontavam os novos moradores desta região. Apesar de tudo isso, não se abatiam e lutavam por condições dignas de vida. E para isso, saúde era fundamental. A polenta era indispensável para dar força ao executar as tarefas do dia-a-dia e as atividades eram regulares. Caçavam, plantavam, colhiam frutas e carregavam pedras. Mesmo com tanto esforço físico, os imigrantes não conseguiram se livrar de uma peste nada inofensiva que fez várias vítimas em uma localidade do município.
Esta é parte da história do bairro Rio Carvão, interior da cidade, um dos núcleos da colonização italiana dentro de Urussanga. O ano era de 1880 e uma epidemia assolava os imigrantes. Muitos deles foram acometidos pela enfermidade, que iniciava com uma febre muito alta e na maioria dos casos terminava fatalmente. “Eles diziam que estavam queimando vivos, de tão forte que eram os sintomas. Ninguém sabia que tipo de doença era aquela, mas eu acredito que era um tifo bem grave” fala o urussanguense Adão Bettiol.
Se era tifo, ninguém sabia, nem mesmo sabe-se até hoje, mas o que têm-se conhecimento é que a peste deixou muitas vítimas no local. Segundo Vilma Civieiro Vidotto, 79 anos, residente no Rio Carvão desde que nasceu, a situação era crítica na época. “Quando alguém morria, era levado até Urussanga para ser enterrado de carro-de-boi. Muitas vezes, quando chegavam de lá, encontravam outro falecido aqui no Rio Carvão. Era um vai-e-vem até o cemitério da cidade”, explica Vilma.
A ajuda chegou a cavalo, vinda de Tubarão. Eram os irmãos Cóculos, um padre e outro médico, que foram chamados para prestar socorro à comunidade. “A primeira casa que eles passaram foi a da viúva Mônica Nichele. Ela ardia em febre, e estava tapada com cobertas, trancada dentro de casa. O médico chegou, abriu a residência para ficar mais arejada e ordenou que os filhos molhassem um lençol com água do rio para colocar sobre a mulher. Quando o manto molhado estivesse quente devido à caloria do corpo da enferma, o processo deveria ser refeito, e assim sucessivamente”, relata Bettiol.
Ele fala, ainda, que quando partiu para a próxima casa, o médico afirmou que na volta retornaria à residência da viúva para ver se ela estava melhor. “Os filhos estavam prontos para matar o profissional quando retornasse, pois acreditavam que a água fria sobre o corpo quente seria fatal para a enferma. Mas eles estavam errados. Na volta, o médico passou para ver dona Mônica, e para sua surpresa ela já estava sentada na cama, agradecendo-lhe pela ajuda prestada”, lembra o urussanguense.
A partir daí, as pessoas que estavam doentes passaram a ter o corpo envolto por panos e mantos molhados para tentar manterem-se vivos. Também eram transportados às margens dos rios ou córregos, na tentativa de baixar a febre alta. “Minha avó contraiu essa doença. Ela dizia que estava sendo queimada, que não aguentava mais. Então, o médico molhou o lençol e a envolveu nele. Ela se curou, e um ano depois conseguiu engravidar”, ressalta Vilma.
Para diminuir a intensidade da peste, a solução foi encontrada na fé tão comum do povo italiano. Devotos de Madonna Della Salute (Nossa Senhora da Saúde) fizeram uma promessa à santa para que aquele pesadelo em que viviam fosse cessado. Uma grande peregrinação foi realizada no Rio Carvão, com a presença fundamental da imagem da Nossa Senhora vinda da Itália pouco tempo antes. A promessa atestava que se a epidemia acabasse, todos os anos uma missa seria realizada em homenagem à santa, que tantos milagres dispensava aos seus fiéis devotos.
No dia 11 de maio daquele ano a última pessoa morreu com os sintomas da doença. Repentinamente, a peste acabou e não ceifou mais vidas. Com isso, a devoção dos colonos em Nossa Senhora da Saúde aumentou muito mais. A celebração inicialmente denominada “Missa da Peste” começou a ser realizada todos os anos na mesma data, e o dia era tão santo quanto a sexta-feira da paixão. Na época, ninguém trabalhava no dia e os moradores do Rio Carvão faziam jejum e oravam à Madonna Della Salute pelo milagre dispensado a eles.
A doença que parecia não ter nome nem remédio cessou e até hoje é relembrada pelos descendentes dos imigrantes. Aquele inimigo invisível, que trazia dor e tristeza, acabou fazendo aumentar a devoção na santa e em Deus. A missa do dia 11 de maio é de grande importância na comunidade, pois mostra a todos que a fé é indispensável na vida de qualquer pessoa e pode, realmente, proporcionar milagres a quem acredita.

