Tragédia no Bairro São Pedro
ago 28th, 2009 | por Jornal Vanguarda | Categoria: Especial
Angústia e aflição. Pode-se assim definir os momentos vividos pelos moradores de Urussanga, em especial os do bairro São Pedro, no início da década de 50. Às vésperas do Natal, um desastre aéreo deu lugar às belas manobras que estavam sendo feitas. Inesperadamente, dois jovens faleceram de forma trágica, traumatizando quem presenciou o fato. Naquela tarde, o sinal de fumaça foi lançado de maneira inevitável. A curiosidade tomou conta dos moradores de toda a região que ouviram o estrondo e viram a grande nuvem preta tomando conta do céu azul. O que teria acontecido? A resposta era rápida, assim como a conclusão tirada por todos: Um avião caiu no aeroporto de São Pedro; um desastre aconteceu!
Moradores ainda discutem o acidente
Antes funcionando próximo a escolinha do São Pedro, o aeroporto foi transferido para o terreno da família Cechinel na década de 40. Lá permaneceu até o ano de 1952, quando o trágico desastre aconteceu. “Havia no local um movimento muito intenso de aviões. Diariamente, chegavam a pousar até cinco aeronaves”, fala Idalino Cechinel, 79 anos, que morava em frente ao aeroporto. A pista, que possuía mais de mil metros de comprimento, era feita de barro e areão. A Prefeitura tinha planos para aumentá-la e melhorar as condições de pouso, mas o acidente impossibilitou a execução destes projetos.
Uma das vítimas era o paraquedista Mário Marques, 24 anos, natural da cidade de São Paulo. O jovem ficou em Urussanga por um curto espaço de tempo para realizar alguns trabalhos. No dia da tragédia, estava indo embora com a finalidade de passar o Natal com a família. Ele não sabia, porém, que aquela data comemorativa seria a mais desesperadora e triste que os familiares e amigos imaginariam ter.
Era o mês de dezembro, e um oficial da Aeronáutica de Florianópolis veio à Benedetta buscar o jovem Mário. Ficou alguns dias na cidade, conhecendo os atrativos naturais que o município oferecia na época. Finalmente, no dia 22, os dois iriam embora. “Lembro-me bem que pouco antes de embarcar no avião, Mário veio aqui em casa beber um copo d’água. Ele era uma pessoa muito boa, foi um grande susto para todos nós”, lembra Idalino. Conforme informações de outros moradores do São Pedro, antes de partir as duas vítimas tinham ido ao centro comprar vinho para levar à cidade paulista. “Pelo que sei, eles já aproveitaram para beber um pouco antes de voar. Talvez isso foi um dos fatores responsáveis pelo acidente”, fala Gentil De Noni, 80 anos, residente na localidade desde que nasceu.
Era chegada a hora ir. De tarde, subiram na aeronave da Força Aérea Brasileira. “Eles levantaram voo, foram embora, e nós ficamos olhando até ele que desaparecesse no céu. Mas, de repente, o avião voltou em direção ao centro do município”, fala Idalino. Fizeram o contorno na cidade, e novamente retornaram ao aeroporto. Lá, algumas pessoas observavam a rota que fazia a aeronave, estranhando a volta ao local. De repente, o oficial começou a fazer manobras, enchendo os olhos que quem os assistia. “Eu estava na frente de casa quando tudo aconteceu. O avião veio rasante no chão, a toda velocidade, e rapidamente subiu. Ele foi de bico para o céu, e pelo que pude perceber, subiu cerca de mil metros acima da pista. Quando começou a descida, perdeu o controle e caiu no chão, fora do posto de decolagem. Não dá para imaginar o susto que levamos na hora, foi horrível”, diz Idalino.
Após fazer algumas acrobacias sob o céu da Benedetta, a aeronave caiu sem controle no lado da pista. Lado este, por sorte, onde não havia casas, nem pessoas perto. O estouro e a explosão ocasionados pelo avião quando colidiu contra o chão foram assustadores. Na mesma hora, o aparelho explodiu e pegou fogo. A fumaça preta tomou conta do céu de São Pedro, e pôde ser observada das mais diversas localidades da cidade.
“Por cerca de três horas a aeronave ficou queimando no chão. Quando apagou, pudemos ver o seu estado. Só existiam destroços e fuligem”, conta Gentil. Os dois rapazes faleceram devido à força do impacto ao cair e foram completamente queimados pelo fogo. Moradores dos bairros próximos, e até dos mais distantes foram correndo até lá para ver o que havia acontecido. Há relatos de residentes dos arredores de Azambuja que dizem também ter ouvido o barulho ocasionado pela queda. Em pouco tempo centenas de curiosos estavam no aeroporto, não acreditando no que viam.
“Os corpos foram retirados no mesmo dia pelo Corpo de Bombeiros de Tubarão. E foi Fernando Bettiol, que passava por ali de caminhão, quem emprestou a lona para enrolar as duas vítimas. Os restos do avião, no entanto, foram deixados no local por mais alguns dias até virem buscá-lo”, ressalta Gentil. Mesmo passando semanas do ocorrido, o trágico voo ainda continuou atraindo a curiosidade das pessoas. “Durante todo o dia, por um longo tempo, ainda vinha gente aqui ver onde a aeronave havia caído. Eram pessoas dos mais variados bairros e cidades da região. Lembro-me que até por volta da meia-noite eles vinham conhecer a pista. A curiosidade era imensa, mas eu, por exemplo, fiquei muito traumatizado por ter visto a cena. Durante aproximadamente 15 dias não consegui comer nada, a imagem do acidente e dos corpos carbonizados não me saíam da cabeça”, salienta Idalino.
Após a tragédia, os moradores de São Pedro começaram a especular sobre o que aconteceria com o aeroporto inserido na localidade. Os projetos de melhorias seriam arquivados ou colocados em prática? Pouco tempo depois, a resposta veio da Prefeitura Municipal. Um decreto, de fevereiro de 1954, assinado pelo então prefeito Dionísio Pilotto, ordenava a desapropriação do Campo de Pouso Municipal para torná-lo de utilidade pública. “Se não fosse esse acidente ter ocorrido para fechar o aeroporto, Urussanga poderia ser bem maior hoje em dia. Quem sabe até São Pedro poderia ter se tornado uma cidade, não é mesmo?”, questiona Idalino.
A pergunta do senhor ainda hoje é feita por muitos daqueles que acompanharam de perto o desenrolar do drama vivido em 1952. O aeroporto continuaria prestando serviços aéreos ativamente se aquilo não tivesse ocorrido? Qual seria o futuro da comunidade se não fosse a morte tão violenta dos dois jovens há 56 anos atrás? Perguntas que não têm e nem terão respostas, e que ficaram para trás na memória de quem presenciou a tragédia.
O falecimento dos rapazes foi responsável por um dos maiores dramas vivenciados em Urussanga. Este fato não marcou somente a história da cidade, mas todo o rumo que ela vem seguindo desde então. Além disso, e não menos importante, muito pelo contrário, o ocorrido ficou gravado na lembrança daqueles que choraram e se emocionaram com o fim trágico do oficial e do paraquedista paulista Mario Marques.

