Arte a ferro e fogo atravessando o tempo
ago 28th, 2009 | por Jornal Vanguarda | Categoria: Rural
Nos dias de hoje são poucas as pessoas que podem ser consideradas exemplos de força e superação, e que conseguiram vencer as dificuldades impostas pela vida. Mas elas existem, e podem estar bem mais próximas do que se imagina.
O ferreiro aposentado Lírio Folchini, de 86 anos, é uma dessas pessoas. Desde cedo teve que aprender que o trabalho é de suma importância na vida de um homem. Veio de uma família simples da comunidade de Azambuja, em Pedras Grandes. Quando tinha apenas 14 anos aprendeu a profissão de ferreiro, e com 17 já podia ser considerado um profissional responsável. O ofício foi ensinado por um conhecido, Carlos Spillere, que mais tarde veio a se tornar seu concunhado. Desde quando aprendeu a moldar o ferro, nunca mais parou de trabalhar. Se especializou na confecção de machados, enxadas, foices, facões, pás, picaretas, além de realizar reparos em equipamentos agrícolas, como arados, carpideiras, entre outras peças. Porém, o interesse pelo material que mais tarde iria se tornar a principal matéria prima de seu trabalho começou quando ainda era apenas um menino, com aproximadamente sete anos. “Eu adorava ver como funcionava a roda de ferro de um ‘carretão’. Como podia ser tão perfeita? Por mais que eu observasse não via nenhuma emenda, e isso me chamava atenção”, conta Folchini.
No início, Lírio trabalhou para outras pessoas até conseguir juntar umas economias e comprar, de seu Afonso Rosso, uma ferraria movida à água, na localidade de Santo Antonio de Azambuja, em 1948. Esta ferraria até hoje é mantida em perfeito estado de conservação. Seu Lírio faz questão de mostrar que, apesar dos seus 86 anos, ainda continua sendo um habilidoso ferreiro, e demonstra com muita segurança como utilizar cada uma das máquinas que compõem sua ferraria, desde o malho até a prensa, os marteletes e os modernos equipamentos de corte. “Antigamente demorávamos horas para cortar uma peça de ferro, usávamos talhadeiras, marretas e a bigorna para fazer uma encomenda. Hoje apenas tenho que medir, e em poucos segundos o trabalho está pronto. Sou de um tempo que levávamos um dia inteiro para produzir 24 enxadas. Não havia expediente, a gente começava a trabalhar de manhã, só parava para almoçar e depois saia da ferraria quando já era noite”, afirma ele.
Na época que adquiriu a ferraria, tudo que produzia era vendido para a região carbonífera que estava em franco desenvolvimento e necessitava de ferramentas. O ferro utilizado por ele era comprado na estrada de ferro e em Laguna.
Mas o aposentado não parou no tempo, sempre ficou atento às mudanças, e quando a energia elétrica chegou em sua localidade, em 1968, começou a se preocupar em modernizar o maquinário que antes era manual ou movido à força d’água. No entanto, a adesão total para a energia elétrica aconteceu somente anos depois.
Lírio foi casado por duas vezes. A primeira esposa faleceu apenas um ano e meio após o casamento, deixando um filho. No segundo casamento, foram 55 anos de união até a viuvez. Com a segunda esposa teve mais oito filhos. “Sempre tirei o sustento da minha família da ferraria”, ressalta o aposentado.
A trajetória de vida de Folchini não foi fácil, ainda na infância seu pai, em busca de trabalho, saiu do local onde moravam e foi procurar emprego no estado vizinho do Rio Grande do Sul. De tempos em tempos, vinha visitar a família e a esposa. Com o passar do tempo, as visitas foram se tornando cada vez mais escassas, até que um dia ele parou de vir definitivamente, abandonando a esposa com quatro filhos pequenos. A mãe de Lírio tinha de trabalhar para garantir o sustento. Ela levava as crianças menores para o trabalho e deixava o menino em casa incumbido de algumas tarefas domésticas. “Aprendi a cozinhar quando tinha só sete anos. Costumo brincar que aprendi na chinelada, porque se deixasse de fazer as tarefas sabia o que me esperava. Mas isso serviu para eu entender que devia ajudar minha mãe. Aos 14 anos, quando me tornei ferreiro, pude ajudá-la e mais tarde ampará-la em minha casa até seus últimos dias”, relembra ele.
Mesmo com seus 86 anos, hoje ele faz algumas ferramentas sob encomenda. “Quando escuto alguém reclamar do trabalho, sempre digo ‘feliz de quem pode trabalhar’, pois eu trabalhei minha vida inteira”, finaliza ele.

