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Casamento, amor e tragédia: Do SONHO ao PESADELO

ago 21st, 2009 | por Jornal Vanguarda | Categoria: Cultura

O amor sempre foi um dos maiores protagonistas das grandes e belas histórias. É ele que traz acalento aos corações sofridos e paz a quem padece. Faz com que tudo fique mais bonito e o mundo ganhe mais cores. Além, é claro, de fazer com que os apaixonados suportem qualquer obstáculo que encontrem pela frente, passando por cima de todos os impedimentos, em busca da satisfação por inteiro. Porém, algumas vezes este sentimento tão bonito pode torna-se trágico e funesto. Por ser não correspondido ou até mesmo acidentalmente, o amor, por vezes, é virado em uma faca de dois gumes, que ao mesmo tempo que satisfaz, também fere, machuca e até mesmo mata.

Esta é a história de Napoleão Ferraro e Matilde Barrichello, filhos de imigrantes italianos que sonhavam com a felicidade eterna, um ao lado do outro. Porém, não foi exatamente isso o que ocorreu. Assim como na história de Romeu e Julieta, do dramaturgo William Shakespeare, os jovens estavam unidos pelos laços do amor, mesmo que a mãe da noiva fosse totalmente contra o matrimônio. Passando por cima de qualquer empecilho, resolveram unir-se sob a benção de Deus, mas uma grande tragédia separou-os ainda na Igreja. O amor dos jovens seguiu à risca as palavras do padre: “Juntos, até que a morte os separe”.

Os personagens principais desta história são os jovens apaixonados, Napoleão e Matilde, e o irmão do noivo, Giovanni Ferraro. O enredo conta com grandes conflitos, o clímax se dá ao lado da Igreja Matriz e seu desfecho não é um dos mais felizes, embora seja bastante comovente. O fato rende uma emocionante narrativa que tem, com certeza, um epílogo muito diferente do normal.

Era 14 de abril de 1906 e a Igreja Matriz de Urussanga se tornava palco para o casamento dos jovens. Napoleão e Matilde uniam-se em matrimônio e trocavam alianças com a finalidade única de constituírem família e serem felizes por todo o sempre. Mas esse desejo infelizmente não foi concretizado. O fatídico 14 de abril daquele ano, que caiu em um sábado de aleluia, ainda deixa os moradores de Urussanga assustados e repercute nas rodas de conversas das pessoas de mais idade.

A mãe da noiva, Adria Bettiol, mulher viúva, nunca foi a favor do matrimônio. Desejava casar a filha com um homem rico, que lhe desse conforto e comodidade. Mas Matilde estava apaixonada por Napoleão, e não suportando mais o desprezo da mãe em relação a seu amado, resolveu sair de casa mesmo antes da benção do padre. Mudou-se para a casa do noivo e, por fim, casou-se grávida.

Conforme João Trento, de 96 anos de idade, sobrinho e afilhado de Giovanni, Adria não suportava a ideia de ver a filha casada com o jovem Ferraro. “Ela dizia que preferia acompanhar Matilde no corpo santo, em seu enterro, do que na Igreja para o casamento. Parece que foi castigo, ninguém pode falar uma coisa dessas, nunca”, fala seu João. Além disso, o irmão da noiva, Domingos Barrichelo, certo dia afirmou que preferia afogá-la no Rio Urussanga do que vê-la casando com um Ferraro. “Algum tempo depois, quando atravessava o mesmo rio com uma égua, o animal se enrolou no cabresto e caiu. Foi aí que Domingos morreu afogado, como se fosse uma punição de Deus”, diz o urussanguense Adão Bettiol.

E chegou o grande dia. Os noivos vieram da localidade de Belvedere, onde residiam, em direção à Igreja. Ali, todos os convidados os esperavam para a celebração, que ocorreu normalmente dentro da tradição católica. Após o casamento, familiares, amigos e o casal subiram nos cavalos para ir até Belvedere, onde a festa aconteceria. Lá, a comida estava pronta, e a cantoria garantida. Como de costume, em sinal de alegria, os homens se preparavam para dar uma salva de tiros, com armas de fogo. Giovanni, o irmão mais novo de Napoleão, puxou a arma Garrucha 44 e deu um tiro para o ar. O cavalo ficou atordoado com o som, e pulava assustado. Quando o jovem disparou o segundo tiro, e gritou as palavras “Viva os noivos”, desprevenido por um salto do animal, acertou em cheio o coração da noiva, que caiu sem vida no chão.

Da alegria ao desespero. Assim pode ser descrito aquele trágico momento de quem estava presente no local. Matilde faleceu, e nada pôde ser feito para tentar retirar o bebê de seu ventre. A festa acabou, assim como a felicidade dos noivos e o casamento tão almejado por eles. “Depois do que aconteceu, a mãe da noiva falou pra quem quisesse ouvir: Os Ferraro roubaram minha filha, mataram ela e agora, eles que a enterrem. Quando foi sepultada, a família de Matilde nem apareceu na cerimônia”, diz Adão.

A aflição tomou conta da família Ferraro, tanto que Napoleão e Giovanni foram juntos morar no Rio Grande do Sul. “Eles tiveram tanto desgosto que foram pra lá e só voltaram depois de 30 anos. Ninguém mais tinha os visto, a tristeza era tanta que abandonaram tudo aqui para viverem em outro Estado e tentar esquecer o ocorrido”, explica João Trento.

Dizem as pessoas de mais idade que por este motivo nunca mais foram realizados matrimônios no sábado de aleluia aqui em Urussanga. Consternado com a tragédia, o jovem Ferraro fincou no local, ao lado da Matriz, uma cruz em homenagem à Matilde, a noiva grávida que foi acidentalmente assassinada após o casamento. É sabido que Giovanni, mesmo atordoado, casou-se com Angelina Venturella, em Bento Gonçalves, e teve com ela dois filhos. Já Napoleão, viúvo tão precocemente, casou-se com Cristina Seiga, mas nunca teve filhos, apenas um menino adotado chamado Edu.

Matilde era uma jovem sonhadora que queria ser feliz ao lado de seu amado e do filho, que infelizmente nunca pôde ter no colo. Amava Napoleão, e apesar de toda a tragédia que gira ao redor deste fato, realizou seu maior sonho, mesmo que por tão pouco tempo. Depois de mais de 100 anos, o fato ainda é comentado pelos urussanguenses. Também, pudera, uma história dessas, de amor, determinação e drama deve ser contada e recontada diversas vezes, para mostrar a todos que o amor vale à pena, mesmo não tendo um final feliz.

3 comentários
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  1. Sou neto da Sra. Helena Ferraro (Helena Regina Adele Ferraro, nome de solteira) , filha de Antonio Ferraro e de Salute Ferraro, irma do Dr. Silvio Ferraro, Lina Ferraro e de Armando Ferraro. Minha avo se casou, em 1922, com um comerciante portugues, Luiz dos Santos Araujo, que ia regularmente a Urussanga a negocios. E ao ler o artigo fiquei muitissimo curioso a respeito, pois nunca ouvi tal episodio na familia. Gostaria de ter mais detalhes a respeito.
    Atenciosamente, Jose Luiz

  2. Acredito que sou neta de Giovanni, que conheci quando menina como Vô Joanim, marido da Vó Angelina, pais de Ivo e Leda, ambos já falecidos. Nasci em Santana do Livramento/RS onde meu pai Ivo casou com Ruth Jardim. Não tenho notícia de outros familiares da familia Ferraro, mas lembro que meus pais falavam que recém casados moraram em Urussanga e esta história trágica me foi contada, mas nunca tive maiores detalhes. Hoje infelizmente, parece que está confirmada. Gostaria de maiores detalhes e notícias de familiares, como primos e outros. Tenho uma irmã que assina Ferraro porém não tem descendentes. - Regiane Jardim Ferraro, residente em S.do Livramento. Tenho um filho a quem coloquei o sobrenome Ferraro para continuidade ( o nome do pai vem antes do Ferraro) - Adriano Antunes Ferraro, nacido em Campo Grande-MS, onde residimos.
    Ficaria muito feliz em ter notícias, detalhes, esclarecimentos, enfim, algum contato.
    Grata, Lorena

  3. Estive em Urussanga na semana passada, e fui ao Cemiterio para tentar descobrir onde estao sepultados os meus bisavos. E procurei me informar melhor a respeito do Napoleão Ferraro. Ele era um dos irmãos do Antonio, meu bisavo. Soube tambem que a jovem noiva fugiu de sua casa e foi morar na casa dos meus bisavos ate o casamento… Cordialmente, Jose Luiz Amarante

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