“Homens” Presunçosos
jun 26th, 2009 | por Jornal Vanguarda | Categoria: CrônicasA decisão estúpida do Supremo Tribunal Federal (STF) em abolir o diploma universitário para a obtenção do registro profissional de jornalismo abre um precedente perigoso. Se a moda pega, não vai faltar alguém que um dia acorde com o ovo virado e entre com uma ação na justiça para acabar com a obrigatoriedade do diploma para exercer a função de médico. A alegação poderá ser a de que o exercício da medicina é semelhante à atividade de culinária e corte e costura.
Mas o leitor certamente alegará que a profissão de médico é uma atividade que pode colocar a vida das pessoas em risco, caso o profissional não esteja preparado e por isso precisa de um diploma. Mas um profissional de culinária também pode matar centenas de pessoas caso ele coloque um ingrediente com a bactéria do botulismo na maionese. E onde os talentosos profissionais do corte e costura entram nessa história? E como esta honrada atividade pode resultar em risco à saúde pública? A bem da verdade eu não sei, mas desconfio que tenha algo a ver com a possibilidade desse profissional, um dia, vir a fabricar um lote de calças com uma perna só, ou da noite para o dia, o pessoal do corte e costura virar indivíduos presunçosos e resolverem costurar só para o seu seleto meio e deixar o resto da população sem roupas. Fato esse que poderia resultar na morte por frio de centenas de criaturas comuns no inverno.
Brincadeiras à parte, vamos raciocinar sério: o leitor já parou para pensar se alguém resolvesse abolir os diplomas de engenheiro, contador, advogado e etc…? Quem residiria num prédio de 20 andares construído por um sujeito que mal cursou o ginasial? Quanto tempo este edifício ficaria de pé? Quem se submeteria a uma cirurgia de alto risco com um cara que aprendeu tudo na “escola da vida”? Você confiaria num balancete assinado por uma pessoa que não concluiu o segundo grau?
E o jornal, a TV, o rádio, quem daria crédito para esses veículos se seus profissionais não tivessem conhecimento suficiente para produzir um texto isento, completo, ético e correto? Tem muita gente que diz: “Para ser jornalista basta ter talento para escrever”. Ledo engano. Não basta ter talento, tem que ter caráter, conhecimento das técnicas de redação jornalísticas, entre tantas outras coisas que só se aprendem na universidade. Se não, vejamos o que disse o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar Brito: “a independência e a qualidade necessárias ao correto trabalho jornalístico são obtidas somente com diploma e com o registro no Ministério do Trabalho. O primeiro garante a qualidade técnica e o segundo a qualidade ética”.
Num artigo publicado para o jornal A Notícia, o advogado Carlos Adauto Virmond Vieira recorreu a Nelson Rodrigues para ilustrar bem o momento em que a imprensa brasileira está passando: “(…)vivemos um tempo em que os idiotas perderam a modéstia e em nome da liberdade de expressão temos de respeitar toda sorte de asneira proferida por pessoas que opinam sobre o que não sabem ou não conhecem”.
Bem, me parece que a decisão do STF não cabe mais recursos. O jeito agora é esperar para ver no que vai dar. Na minha opinião quem exerce a função de jornalista sem ter passado por uma universidade é um PICARETA. E com ou sem a exigência de diploma, PICARETA continua sendo PICARETA e jornalista (com DIPLOMA) continua sendo jornalista por excelência.
* César Pereira
Jornalista

