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Made in China

mai 14th, 2009 | por Jornal Vanguarda | Categoria: Crônicas

Numa lanchonete duas mulheres conversavam. Uma delas era morena, de rosto redondo, nariz aquilino e lábios bem rebocados com batom vermelhos, palestrava para amiga sobre a infestação de produtos falsificados na cidade. A amiga ouvia atenta o que a outra dizia e concordava balançando afirmativamente a cabeça. As vezes arriscava um “não diga?”.

– Uma colega minha comprou um secador de cabelo e quando foi ligar, quase pôs fogo na casa!
– Não diga???
– Sim, a pobrezinha ainda teve queimaduras de terceiro grau na mão direita!
– Não diga???
– E o pior você não sabe!
A outra arregalou os olhos e esticou o pescoço para ouvir melhor.
– A coitada queimou quase todo o cabelo, que batia pela cintura. Ela era evangélica.
– Não diga???
A mulher, a que falava, pediu um sorvete misto, creme com chocolate da maquininha expressa.
– No cascão! – Gritou para o rapaz que a servia.
A outra amiga também pediu um sorvete, mas de creme.
– Bom este sorvete, né?
A outra concordou balançando a cabeça.
– Bem, este eu tenho certeza que é original!
Ficaram quietas por um momento, enquanto experimentavam os sorvetes. A que quase não falava olhou para o relógio e lembrou que era hora de tomar o remédio para a pressão. Pediu um copo d’água, puxou a cartela de comprimidos e quando foi colocar a cápsula na boca foi impedida pela outra.
– Este remédio, aposto que é falsificado. É um perigo! – Pegou caixinha do remédio na mão, franziu o senho e concluiu:  
– É uma falsificação grosseira!
– Não diga???
– É falso!
– M- mas…
– Isso é um caso de Polícia.
A amiga começou a sentir-se mal e pela primeira vez articulou uma frase:
– Acho que é a minha pressão, vou tomar esse remédio mesmo.
– Não senhora! Tomar essas coisas falsificadas pode causar danos à saúde e até levar à morte!
A amiga não respondeu. Apenas arregalou os olhos, ficou pálida e caiu da cadeira. Formou-se uma grande confusão, todos queriam ajudar. Alguém acionou o Samu. Os enfermeiros recolheram a pobre mulher, colocaram dentro da ambulância, que saiu feito um bólido em direção ao hospital. Ela teve uma crise de hipertensão e só não morreu porque conseguiu engolir um daqueles comprimidos “falsos”.
No meio do alvoroço, a mulher ainda com a caixa de remédios para a pressão numa das mãos, olhou para o rapaz que servia os sorvetes e disse:
– É nisso que dá a pessoa tomar remédios falsificados! – Jogou a caixa de remédio no lixo, pagou a conta e saiu em direção à loja de 1,99. O rapaz pegou o dinheiro e ainda pode ler a estampa da camiseta que havia um desenho com a seguinte inscrição: “Made in China”.

* César Pereira
Jornalista

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