O Carnaval e cinzas
fev 26th, 2009 | por Jornal Vanguarda | Categoria: Crônicas“Vai meu povo
esquecido da verdade
pintado com a cor da liberdade
vestindo fantasia de alegria
Cai na dança, avança na folia”
Este trecho da música do inesquecível Gonzaguinha é uma referência a relação do povo brasileiro com o carnaval. A maior festa popular brasileira tem o poder de seduzir até mesmo os mais iracundos. Mesmo quem se revela um “anti-carnavalesco”, no fim, acaba dando uma olhadinha na televisão, especialmente se aparece uma daquelas “deusas” seminuas remexendo o quadril. No geral, o carnaval funciona como uma substância alucinógena. Ela tem o poder de nos tirar da realidade, de nos fazer esquecer das coisas, principalmente se forem muito sérias. E se realmente a vaca for para o brejo, não perdemos nem a pose e nem o sorriso, pois logo que findar a festa de Momo, com certeza daremos um jeito de socorrer a vaca.
Na folia tudo é motivo de alegria. Até mesmo quando morre alguém, pois um dos que estão no velório faz questão de lembrar que o falecido não queria tristeza ao redor do caixão. Então aparece, como por encanto, uma ou duas garrafas de aguardente e comemora-se a partida do finado dessa para melhor.
São nos dias de Carnaval que tudo vale à pena, pois a alma dos foliões não é pequena (perdão Fernando Pessoa). No carnaval a química do corpo se altera e as reações (químicas) provocam uma intensa troca de substâncias e de energia entre os elementos (químicos), que podem evaporar nos dias sequentes ou resultar na formação de um terceiro elemento nove meses após. É a vida.
Mas nem tudo é confete e serpentina. Infelizmente, os excessos ofuscam um pouco o brilho da fantasia. É uma química perigosa e radioativa que provoca estranhas reações. Começa invariavelmente com a mistura de álcool etílico com um motorista estúpido e termina num poste com as rodas viradas para o céu. Que Deus o tenha.
A quarta-feira de cinzas é o terror dos foliões. Ela representa a lembrança da verdade. A cor da liberdade sai com o suor e a fantasia de alegria se desfaz como por encanto, logo que o sol da quaresma silencia as marchinhas e sambas enredo.
E aí, encaramos os dias de trabalho, as contas à pagar, o risco de perder o emprego, a família para sustentar, a escola, o ônibus, o imposto de rendas, a fila do SUS, entre tantas coisas da vida sem carnaval. Bom seria, que a alegria de Momo durasse o restante dos dias e como diz o final da mesma música do Gonzaguinha: “Quem sabe um dia chega alguém anunciando que não há mais quarta-feira”.
* Cesar Pereira
Jornalista

