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A mentira

dez 4th, 2008 | por Jornal Vanguarda | Categoria: Crônicas

Num dia desses o Gabrielzinho chamou o pai e a mãe e foi taxativo:
“Vocês mentiram para mim!”
“Como assim, mentimos para você?”, perguntou o pai com ares de ofendido.
“Mentiram sim!”, gritou o garoto revoltado.
“Calma meu filho, deve estar havendo algum engano. Eu e o teu pai jamais mentiríamos para você”, Disse a mãe fazendo um afago no rebento.
“Papai Noel não existe!”.
Os pais se entreolharam e ficaram sem saber o que dizer.
“O trenó, as renas e o saco de brinquedos são pura invenção”, continuou Gabrielzinho, já em lágrimas.
“Meu filho, não fica assim… Tudo bem, ele não existe, mas…”
“Então é verdade, ele não existe mesmo”, choramingou a criança.
“É, ele não existe”, disse a mãe, categórica.
“E por que vocês me enganaram todo esse tempo?
“Nós não te enganamos. O Papai Noel é uma lenda, filhão, assim como não existe o bicho papão, bruxa e lobisomem. Além do mais todo mundo conta essas estórias para os filhos, depois eles descobrem a verdade e seguem a vida sem problemas”, disse o pai.
“E lobo mau, existe?”
“Não”, disse o pai.
“Não vai me dizer que a Branca de Neve e os sete anões também não existe?”
“Não existe”, falou a mãe.
“Então o Dunga, o Zan…”
“Ah! O Dunga existe!” Gritou o pai, apaixonado por futebol.
“Então, debaixo da minha cama não existe Bicho-Papão?”
“Não”.
“Saci?”
“Não”.
“Cuca?”
“Não”
“O que mais é mentira?” Perguntou
Com a ternura própria de uma mãe dedicada, ela ajoelhou-se na frente do guri e falou: “Filho,tem mais uma coisa que você precisa saber”.
“O que?”
“Você não foi trazido por uma cegonha.
“Então me expliquem bem direitinho como eu nasci”.
O pai olhou para a mãe, que olhou para o garoto e depois olhou para o pai.
“Explica você, Antônio Augusto”
“Não senhora, explica você Ana Cristina”
“Nem pensar!”, exclamou a mulher.
O pai resignado com o dever de explicar como o filho veio ao mundo olhou para o teto, para televisão, para uma estátua de barro e começou a com um ligeiro pigarro antes de começar o extenso monólogo; tudo sob o olhar atento Gabrielzinho.
“Bem, você nasceu de um punhadinho de barro, que…”

* César Pereira
Jornalista

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