Daizi: “O preconceito diminuiu em Urussanga”
nov 27th, 2008 | por Jornal Vanguarda | Categoria: Cultura
“Italiano é a raça que tem mais preconceito de negro. Mas do negro que ele gosta, ele gosta mesmo” é isso o que afirma Daizi Bernardes Martins, 68 anos de idade, natural de Lauro Muller e residente em Urussanga. Revela, também, que até o fim da década de 80 o negro não tinha representatividade na diretoria e organização da igreja católica. E quando é perguntado o porquê, a resposta é rápida: “Porque nunca convidaram”.
Fundadora do Grupo Afro de Santana e assessora da pastoral afro do Estado, ela diz que a discriminação em Urussanga amenizou muito, mas continua presente nos moradores.
Os avós vieram da África para trabalhar como escravos na cidade vizinha Tubarão. De lá, partiram para Lauro Muller, na década de 20, por conta das minas de carvão. Foi assim a chegada dos afro-descendentes em Urussanga. Quando a carbonífera se instalou na comunidade de Santana, era necessária uma maior mão-de-obra, e os negros vieram para cá em busca de trabalho. Aos poucos foram chegando na cidade, e hoje, segundo Daizi, há uma estimativa de 50 famílias da etnia em Urussanga.
Vencendo preconceitos, Daizi conseguiu dar aula e formar-se num curso de teologia. Em 1981 começou a lecionar, e como era comum, encontrou muita discriminação por parte dos alunos e dos próprios colegas de serviço. “Uma fato que me marcou muito foi quando eu estava em busca da vaga na escola. A diretora chegou e me disse: Você não pode dar aula! E eu perguntei por que não. Então ela me respondeu: Porque não, você não se enxerga? Isso ocorreu pois ela queria dar uma vaga a uma professora branca, mas não foi por isso que eu desisti. Ela mudou de idéia e me chamou para começar a lecionar”, lembra ela.
Segundo Daizi, o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro, marcou a abertura de uma caminhada de luta contra o preconceito, já que eles queriam lutar, mas não sabiam como. Há dois anos o Grupo Afro envia um projeto à Assembléia para que a data se torne feriado estadual. No ano passado, por um voto de diferença, o projeto foi rejeito, mas o grupo está se organizando para em 2009 encaminhar novamente a idéia ao plenário. A luta contra a discriminação é clara e assídua, e os integrantes do Grupo Afro fazem todo o possível para que todas as pessoas não vejam diferença entre os negros e os brancos.
“Nós percebemos muito fácil o preconceito nas pessoas. Acontece muito aqui em Urussanga, em especial nas lojas, onde não somos bem atendidos. Outra dificuldade encontrada na cidade é que não se vê um negro trabalhando no comércio, existem pouquíssimos professores da nossa raça, não há um negro nas secretarias do município, e olha que não têm poucas. Não há apoio para a nossa etnia. Sou totalmente contra as cotas para os negros da universidade. Porque isso? Não somos diferentes e inferiores dos outros. Temos capacidade para estudar por nossa própria conta. Já ouvi muitas pessoas falando que negro não tem vontade de estudar, pois têm as cotas e não vão à universidade. Mas o que adianta se eles não têm dinheiro para pagar o transporte, o material? Então dêem emprego, que depois eles buscarão os estudos”, ressalta Daizi.
Ainda conforme a mulher, se há duas pessoas querendo uma única vaga de emprego, uma negra e uma branca, com certeza a branca será a escolhida para a vaga. “Para nós, só falta oportunidade. Precisamos que o italiano nos apóie, e não só financeiramente, mas também com uma palavra de ajuda, de incentivo”, afirma ela. O Grupo Afro de Urussanga atualmente conta com 55 pessoas, entre elas, crianças, jovens e adultos.
Participam de festas, apresentações e palestras. Onde são solicitados e podem ir, o grupo está lá, marcando presença e mostrando os costumes e tradições africanas. Além disso, fazem trabalhos artesanais, como toalhas, caixas de madeiras e quadros, todos eles com aplicações lembrando a cultura afro. Participam das festas do município com o prato tradicional, a vaca atolada, onde vendem os produtos feitos pelos integrantes do grupo.
Apesar de já ter vencido muitas barreiras e preconceitos, os afro-descendentes ainda tem muito a lutar. Eles não sabem o motivo de existir tanta discriminação ainda hoje, mesmo com o mundo estando tão evoluído. O apoio ao negro é fundamental para que a sociedade seja justa em sua plenitude e para que as pessoas possam se orgulhar de viverem em um mundo mais humano e correto.

