Há mais de 100 anos vivenciando a história do município de Urussanga…
nov 13th, 2008 | por Jornal Vanguarda | Categoria: Cultura
Será que existe receita para uma vida longa? Ou somente o destino poderá dizer quanto e como viver? Talvez alguns fatores possam ajudar a estender ou encurtar nossa passagem por esta vida. E a simplicidade do campo é um exemplo disto. As pessoas que vivem em meio à natureza mantêm um contato direto com a fauna e a flora, proporcionando um maior bem-estar. Rosina Maccari Gastaldon sempre morou no interior, e comia o que plantava. Hoje, sabe que viveu muito além do que grande maioria das pessoas imagina poder viver. Rosina tem muitas histórias para contar, histórias estas que acompanhou ao longo de seus 103 anos na cidade de Urussanga.A idade prejudicou um pouco a memória, que falha por vezes quando tenta recordar de determinadas passagens da vida. Porém, a saúde continua impecável, tanto que Rosina não toma nenhum tipo de medicamento e nunca ficou internada. Além disso, a mulher não usa óculos. Os olhos azuis, que são dóceis e parecem tão fragilizados não falharam, possibilitando a perfeita visão do mundo em que vive. “Eu enxergo bem, só não coloco mais a linha na agulha”, fala Rosina.
Neta de imigrantes italianos, nasceu em 19 de fevereiro de 1905 no bairro Rio América Baixo. Aos 13 anos de idade, a mãe faleceu. Rosina ficou incumbida de cuidar dos oito irmãos, os quais tratou como se fossem filhos. Foi aos 21 que se casou com João Irinaldo Gastaldon. O namoro durou três anos e o casamento rendeu ao casal oito filhos, sendo um falecido, 20 netos, 30 bisnetos e três tataranetos.
Após o matrimônio, mudou-se com a família para a localidade de Santaninha, onde reside até hoje. Lá, passou a maior parte da vida; trabalhando, plantando e colhendo o sustendo diário dos filhos. A rotina era basicamente a lida na lavoura. Aos domingos, a família de Rosina ia a pé até o centro da cidade para participar das missas. O caminho era percorrido com os pés descalços, e quando chegavam perto do destino, o sapato era calçado. Para aproveitar a viagem, passavam na padaria do Marchet a fim de comprar alguns pães para a viagem de volta.
Hoje, a rotina da senhora mudou bastante. Não trabalha mais na roça, nem faz os serviços domésticos. No máximo ajuda na cozinha, no preparo de seu prato preferido: a tradicional polenta com galinha ensopada. Acorda cedo, por volta das 5h30min da manhã e vai deitar próximo às 19 horas. “Quando eu não durmo, eu rezo”, lembra Rosina, que mantém o hábito herdado dos pais de rezar o terço todos os dias.
A mulher mais idosa de Urussanga não tem restrições nenhuma quanto à comida e come tudo o que gosta. “Gosto de tudo, menos de apanhar” lembra, com um singelo sorriso estampado no rosto. Ainda continua falando italiano, idioma que aprendeu dos pais e avós. Por vezes, mistura o português com a língua dos imigrantes, tornando-se ainda mais especial, não só pela idade avançada, mas pelas peculiaridades tão próprias que continua mantendo vivas desde a mais tenra idade.
A palavra emoção é insuficiente para distinguir o sentimento de estar perto desta mulher centenária. As expressões faciais e os olhos cansados provam que Rosina teve sim uma vida difícil, mas com momentos suficientemente marcantes para torná-la diferente de qualquer outra pessoa. O pensador irlandês Oscar Wilde já dizia que viver é a coisa mais rara do mundo, e que a maioria das pessoas apenas existe. E Rosina viveu. Viveu intensamente ao lado da família e dos filhos, em uma vida repleta de alegrias e dificuldades. Num local em que o verde continua vivo, em que o céu parece mais azul e que os pássaros cantam com mais intensidade. E Rosina continua lá, sóbria e lúcida, com o lenço na cabeça e rosário nas mãos, levando sua vida tranquilamente.

