Diga com quem andas
nov 6th, 2008 | por Jornal Vanguarda | Categoria: CrônicasOntem quando ia em direção ao centro, vi numa daquelas sacadas defronte a Avenida Centenário uma senhora distraída se bronzeando com seu Poodle em pleno sol das onze e meia.
Lembrei das fotografias que uma amiga enviara no ano anterior e não pude conter o riso. Eram fotos de pessoas que acabaram, de alguma forma, se parecendo com seus bichos ou vice-versa.
A mulher debruçada no parapeito tinha os cabelos fofos como flocos de neve pelo efeito certo e feliz dos bobbs da noite anterior. O Poodle olhava a rua e sacudia os lacinhos da cor do biquíni rosa-pink da dona. O ônibus, quase parado pelo fartura do trânsito, prendeu a minha atenção na sacada.
O que teria mais de semelhança entre a mulher e seu cão?
Talvez não se encontre nos seus traços físicos a evidência dos achados. Quem sabe nem o gesto, nem tanto a cor dos olhos, mas o próprio olhar, a intenção pacienciosa da espera no descansar de pernas, a afeição demonstrada, a raiva contida num momento oportuno; sei lá.
Talvez o que pudesse realmente ser tão fortemente parecido entre eles fosse o gosto do cabeleireiro e do podador. Retive-me no corte Chanel-fofo-forçado e centrei aí a semelhança escondida. Mas também pensei não ser só isso.
Certas coisas não carregam explicações e fiquei imaginando qual animal por ordem da convivência poderia se parecer comigo. Um papagaio talvez tivesse identificação com o meu nariz-tucano. O sol refletiu meu rosto contra a poeira do vidro e ri baixinho ao lembrar do cão Mexicano-pelado de um vizinho.
Imaginei nós dois desfilando no sabor das tardes em meio a olhares e sorrisos enigmáticos pela carência, careca mesmo, quase solidária, de nossos pêlos.
* Idésio de Oliveira
Poeta

