Uma vida dedicada à profissão
ago 28th, 2008 | por Jornal Vanguarda | Categoria: Cultura
Todas as pessoas têm conhecimento que a medicina evoluiu muito nos últimos anos. Medicamentos foram descobertos, atualizaram-se técnicas e os recursos aumentaram e melhoraram. A facilidade em curar uma doença ou fazer uma cirurgia é centena de vezes maior do que há 50 anos. O diagnóstico é mais preciso e os resultados, mais concretos. Acompanhar esta evolução de perto é para poucos. As pessoas com certa idade podem até ter idéia desta transformação na área da saúde. Talvez se consultaram algumas vezes e comparam os métodos antigos com os atuais. Porém, ninguém pode falar destas mudanças com tanta certeza e convicção como os médicos com, digamos, um pouco mais de experiência. Este é o caso de Cirilo de Castro Faria, que há quase 45 anos atua em Urussanga.
Natural de São Joaquim mudou-se para Laguna aos cinco anos de idade. Formou-se em 6 de dezembro de 1963 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Como em Santa Catarina não havia Faculdade de Medicina, o jovem mudou-se para o estado vizinho a fim de realizar o seu maior sonho: ser médico. Em 27 de outubro do ano seguinte veio para Urussanga e daqui, não saiu mais. Quando chegou à Benedetta havia somente dois profissionais da área da saúde atendendo, Raul Nascimento da Rosa e Aldo Caruso Mac Donald. Aos poucos, Cirilo foi ganhando espaço e credibilidade entre os munícipes.
Na época, as pessoas só procuravam o médico quando estavam muito doentes e, em grande parte dos casos, a enfermidade já estava bem avançada. Os pacientes não tinham recursos ou acesso para procurar um profissional da área. As estradas eram ruins e não havia um entendimento, por parte da população, de que cuidar da saúde é fundamental. Outro problema bastante comum eram as complicações na hora do parto. As grávidas não faziam acompanhamento médico durante a gravidez e, algumas vezes, infelizmente, a criança vinha a óbito na hora do nascimento.
“Eu cheguei a atender a um caso de tétano umbilical, mais conhecido por ‘mau de sete dias’. Isto acontecia com certa freqüência porque as mães ganhavam os bebês em casa e não tomavam todos os cuidados na hora de cortar o cordão umbilical. Levava sete dias entre o nascimento da criança, a manifestação da doença e o seu falecimento. Hoje isto não acontece mais, as mães procuram um médico para fazer o parto,”, explica Cirilo.
Outra enfermidade muito comum na época eram as verminoses. Pessoas de todas as idades procuravam recomendações médicas para acabar com os vermes. Atualmente, com a água tratada e o aumento da higiene é difícil aparecer alguém reclamando de tal doença. “Eu me sinto privilegiado por ter participado da última fase da medicina medieval. Tínhamos poucos recursos para fazer os diagnósticos e os medicamentos eram escassos. Para ter uma idéia, ao mesmo tempo em que fazia uma cirurgia, eu precisava aplicar a anestesia no paciente. Era necessário fazer de tudo. Hoje tudo mudou, está muito melhor do que na época em que me formei”, ressalta o médico.
Cirilo tem muitos pacientes fiéis, que consultam com ele há anos e confiam em sua experiência na área médica. Quando veio para Urussanga atendia a todos os problemas e fazia o necessário para que a pessoa doente restaurasse sua saúde. Operou, fez partos e anestesias, e hoje só trabalha com clínica geral. Acredita que os cuidados com a saúde melhoraram muito e que as pessoas tomaram consciência de que prevenir é melhor do que remediar. “É um mito o que dizem por aí que antigamente as pessoas eram mais saudáveis. É só ver que a expectativa de vida do brasileiro aumentou muito nos últimos 50 anos. Falam que naquela época ninguém tinha derrame. É verdade, ninguém tinha. E sabe por quê? Porque as pessoas não chegavam na idade de ter um. Elas morriam antes, muito novas, com doenças que hoje já são praticamente extintas”, explica o médico, que continua atendendo e exercendo a profissão que tanto ama.

