Até o Juca
mar 28th, 2008 | por Jornal Vanguarda | Categoria: CrônicasNum dia desses, um amigo meu confidenciou-me sua desilusão com o ser humano. Tudo porque o Juca, para ele o cara mais honesto do mundo, meteu a mão no erário público, literalmente, roubou.
O Juca era um sujeito pacato, trabalhador, pai de família, de formação escolar singela. Gozava de um certo prestígio perante à comunidade de pescadores onde residia. Prestava atenção no que os mais sabidos diziam, ponderava, tirava conclusões e sempre se dispunha a ajudar. Nos velórios, confortava as viúvas, os órfãos e fazia referências bíblicas: “As almas dos justos estão nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá”. Nas reuniões com os colegas pescadores, Juca defendia com fervor a paga justa para o duro trabalho de retirar do mar anchovas, papa-terras e tainhas, que resistiam aos arrastões ilegais dos grandes barcos invasores da orla sulina.
Quando alguém caía doente, lá ía o Juca, com sua Brasília 75, percorrer quase 20 quilômetros de estradas esburacadas, levar o pobre diabo ao médico. Em verdade, o Juca era a bondade materializada num corpo frágil e sem graça, porém lépido e altivo. Para as crianças trazia balas e pirulitos e para dona Nena, uma velhinha que morava só numa mansarda junto à barra, trazia leite, pão, café e açúcar. O Juca era uma reserva moral!
Mas o Juca recebeu a visita de um homem da administração pública. Uma breve conversa na rua; outra conversa no bar do Muriçoca; mais uma conversa em casa, na frente da família e uma longa conversa em particular no gabinete municipal e ele aceitou a direção de uma autarquia.
Tanto dinheiro, tantas gentilezas, tanto agrado, mais dinheiro, bom salário, aposentou a Brasília 75. Comprou um carro novo, confortável, que quase não dava para sentir os buracos da estrada mal conservada. Muitas reuniões, despachos e compromissos inadiáveis, que não dava mais tempo de retomar sua boa vidinha de antes, junto aos colegas pescadores.
Trancado no escritório, Juca percebeu as altas somas em dinheiro nos livros da companhia. Sentiu uma vertigem e um desejo de consertar os dentes, aumentar a casa, comprar uma pequena propriedade com algumas centenas de cabeças de gado; mandar as crianças à capital para estudar em colégio bom e uns vestidos novos para esposa. Mas, o salário, apesar de ser bom, não dava para conseguir tudo de uma só vez. Afinal, se trocasse o prefeito, perderia o cargo e teria de voltar para a modesta vida de pescador sem perspectivas. Juca somou, dividiu e subtraiu. Juca roubou.
Quando o meu estimado amigo soube das tramóias do diretor da autarquia municipal, disse-lhe com cara de quem recebeu uma punhalada pelas costas: – Até tu, Juca!?
* César Pereira
Jornalista

