Anuncio

A Torre de Babel

mar 28th, 2008 | por Jornal Vanguarda | Categoria: Colunistas, Eduardo Tasca

Na tradição bíblica a Torre de Babel foi o símbolo do desmedimento do homem, que queria igualar-se aos deuses e imaginava ser capaz de tal intento por meios meramente materiais. Construída com tijolo cozido e betume, como muitas outras torres erguidas na fértil Mesopotâmia (uma das regiões povoadas mais antigas do mundo, no vale entre os rios Tigre e Eufrates – atual Iraque), além de função religiosa, também servia de local para observação dos astros e do céu, pois imaginava-se que os céus estavam a apenas dois quilometros da terra.

A Torre de Babel, localizada na cidade de mesmo nome, era um Zigurate, isto é, uma torre-templo, com cerca de oito pavimentos. O templo localizava-se em seu topo, semelhante ao céu e à morada de Deus. Nas cidades babilônicas as torres eram sinal de politeísmo, condenadas pelo monoteísmo hebraico. A Torre de Babel tornou-se obra do orgulho humano. A tentativa do homem de subir à altura da divindade. A cidade que se levanta contra Deus. O Livro do Gêneses diz que a construção da Torre de Babel iniciou-se numa época em que “o mundo inteiro falava a mesma língua, com as mesmas palavras” (Gen 11,1), e era parte integrante do projeto de construção de uma cidade que foi abandonado, porque o Deus Bíblico (Jeová) não apreciou o projeto dos homens e confundiu-lhes a língua. Babel era a capital do império babilônico, cidade-estado rica e poderosa, que atraía pessoas de várias tribos e nações. Centro cultural, militar, político e econômico que gerava inveja e despeito nos hebreus.
 
No relato bíblico, a ousadia pecaminosa e a busca da independência humana são desmedidas, almejando invadir a morada divina. Uma espécie de movimento dos “sem-céu” (e não “sem-terra”). “Vamos construir uma cidade, com uma torre que alcance os céus. Assim nosso nome será famoso e não seremos espalhados pela face da terra” (Gen 11, 4). Diante do desejo de conquistar os céus, garantindo poder e glorificando o próprio nome, Deus interfere e provoca o fim da unidade perversa. As línguas são confundidas, e o projeto é impedido. Toda a unidade humana rebelada contra o Criador acaba se transformando numa diversidade fragmentada. A ruptura teológica torna-se ruptura sociológica e étnica. Pieter Brueghel, O Velho, na tela Torre de Babel (1563), monta um cenário renascentista, onde através das vestimentas dos personagens e do panorama, busca representar, de uma forma alegórica, a Babel da sua época.

Deixe um comentário