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O corpo como abrigo da arte

nov 29th, 2007 | por Jornal Vanguarda | Categoria: Colunistas, Eduardo Tasca

O homem, desde a pré-história, utiliza-se do corpo como estampa para montar cenários próprios ou tribais. Nesse panorama, o indivíduo permite perfurações, cicatrizes, queimaduras, desenhos, pinturas, introdução de próteses, expondo o corpo a arriscados processos em nome da arte. A estampa corpórea é escolhida para utilizar elementos artísticos, até mesmo nas partes mais inusitadas.

Nos anos 60 e 70, esta arte se alarga, rompe fronteiras e permite uma relação diversa entre o artista e o corpo. Surge a body art, arte do corpo. Antes, como mera representação, agora, submetida a experiências diversas onde artistas se despem, lambuzam-se de tintas, cortam-se, comem vidro, levam tiros, bebem sangue. Piero Manzoni, em 1959, enlatou sua “merda”, colocando-a à venda em uma galeria de arte por seu peso em ouro. Dois artistas americanos, em ocasiões diferentes, fizeram sexo com cadáveres femininos, queriam demonstrar que o prazer, o sofrimento, a morte, se inscrevem nesta arte, pois ela perturba, rejeita e nega os velhos valores estéticos e morais da prática artística.      

Na body art, o corpo é o espaço da criação, tomando como palco as sensações mais diversas, numa espécie de negação do desconhecido, instigado pelos efeitos provocativos do próprio ser. O artista, em seu ritual, muitas vezes transborda de êxtase místico. Acredita-se que tais realizações configuram um circuito sadomasoquista, onde a dor passa a ser a dor de si, sem ser sentida. Tais visões, para o espectador, provocam arrepios de desinteresse, onde o caráter estético da obra não adquire espaço no seu olhar. Para outros, a contenção ou a negação da sensação dolorosa pelo sujeito que observa, encontra no acontecimento uma ligação estreita pelo gozo do experimentado, levando a um estado de êxtase. Não raro, também, a platéia, em estado de choque, solicitar a interrupção da encenação. A arte do corpo representa, muitas vezes, estranhamento. Tomamos como palco desse cenário a Índia, a Polinésia, a Austrália, onde esta cultura é milenar. Na contemporaneidade, além da body transformation (transformação do corpo), esta representação é tomada como picadeiro das intervenções cirurgicas, onde as beiçolas de Ana Maria Braga, e tantas outras, parecem com… concluam vocês.

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