Uma entrevista para ficar na história
ago 31st, 2007 | por Jornal Vanguarda | Categoria: EspecialNuma época de homenagem ao maior símbolo religioso de Urussanga, Vanguarda relembra a primeira entrevista concedida pelo Monsenhor Agenor Neves Marques ao jornal, publicada na primeira edição, veiculada dia 2 de agosto de 2003. Na oportunidade, o padre falou sobre os veículos de comunicação, sua extrema ligação com as crianças e a assumida posição ideológica e partidária que o fez uma figura digna de ser lembrada por todos.
Vanguarda – Monsenhor, é um prazer tê-lo como o primeiro entrevistado do Jornal Vanguarda. Urussanga conta agora com quatro meios de comunicação: duas rádios e dois jornais. O que o senhor tem a comentar a respeito desta nova opção de leitura?
Monsenhor - É com grande alegria que eu respondo a esta pergunta, pensando na “biodiversidade” de Urussanga, pensando nos seus filhos, que têm uma oportunidade de expressar seus conhecimentos, de alargar as suas idéias e difundir Urussanga, seja por que maneira for, entre as cidades de Santa Catarina e do Brasil. Só tenho a dar os parabéns, porque fui, sou e continuarei sendo até o último suspiro um dos comunicadores desta minha terra. Aparece mais um órgão de comunicação, é mais um órgão humano para que a gente possa conhecer o que era, o que é e também um pouco do que será.
Vanguarda – Como surgiu a idéia de ser padre?
Monsenhor - A minha idéia de ser padre nasceu do Padre Bernardo, que era franciscano, e do vigário do Estreito, João Pessoa. O meu pai era ligado com Florianópolis e eu morava lá também. Esse franciscano, eu o conheci na minha infância, por causa da doutrina que ia receber na Catedral. A história das catequistas e da lavadeira posso contar rapidamente? Tinha uma amiga lavadeira, bem gorda… Ai meu Deus não sei se posso dizer, bem mamicuda, porque era grande que não era sopa. Ela olhou pra mim e disse: rapaz, tu és bonito, tu vai dar um moço bonito. Tu podia muito bem ser padre. E tinha também as minhas catequistas, a Otília e a Áurea Cruz. Elas eram filhas de um ex-sacerdote, e eu não gosto de falar porque padre é padre sempre. Tem uma expressão na bíblia que diz tu és sacerdos in eternum, que em português quer dizer tu és padre eternamente. Ele deixou de ser padre porque se apaixonou por uma moça morena que se chamava Otília, a minha mãe também se chamava Otília, mas, ele se apaixonou foi pela Otília empregada dele. Suas filhas, então, prometeram a Deus que colocariam alguém sacerdote para substituir o pai. Naquele tempo, deixar de ser padre era uma coisa pavorosa, ninguém queria falar nesse assunto, muito menos os padres. As duas então me ajudaram pagando boa parte dos meus estudos.
Vanguarda – E a lavadeira?
Monsenhor – A lavadeira, minha amiga, um dia perguntou: - Escuta, tu não queria ser padre? - Eu, mas não. - Porque meu filho? - Porque padre não se casa. E eu queria casar com uma moça bem bonita, a mais bonita do mundo, e eu não queria ser padre por causa disso. Mas a nega começou a me botar tentação: come bem, come galinha gorda, toma vinho de primeira classe. Aí, um dia a Dona Áurea Cruz me levou pro franciscano, e disse: - Olha, esse menino aqui tem cara de padre, jeito de padre, quem sabe ele não quer ser padre? Enquanto isso eu estava pensando e olhando para um caqui maduro que tava em cima da mesa do Franciscano, respondi logo: - Ca-quero. Mas eu não queria ser padre, eu queria comer o caqui. (Risos…). Mas Deus, como se serve das coisas boas que tem no mundo, o caqui é uma delas, às vezes leva aqueles quem deseja ou escolheu, não sei bem como é isso, a querer ser padre, e eu disse: - Eu quero! Então o Frei Bernardo me alistou pra ser padre franciscano. Mas então a dona Áurea falou pro Dom Jaime, que era um padre brasileiro: - O senhor andava atrás de seminarista? Eu tenho um, mas é franciscano. Então, o Dom Jaime foi o arcebispo que me acolheu, e o primeiro seminário foi no porão de uma casa de uma viúva, ali onde hoje é a Escola Técnica Federal, se chamava Canudinhos. A sala de aula era embaixo de um grande pé de João Bolão.
Vanguarda - Como iniciou seus trabalhos em Urussanga?
Monsenhor - Eu vim pra Urussanga em 19 de março de 1948. Vim para cá pra substituir o Cônego Luiz Gilli por uma escolha do Clero. O clero alemão, italiano e polonês, porque brasileiro não tinha nenhum, e por aqui precisavam de um padre que soubesse fazer um discurso bonito em português.
Vanguarda - O que o senhor tem a dizer sobre a polêmica questão de padre não poder constituir família?
Monsenhor - Naquele tempo eu não sabia nada disso. Hoje, o papa poderia ter misericórdia da humanidade e, dado os acontecimentos atuais que nós conhecemos, tão “vindolorosos”, a minha tese e o meu desejo sempre foram, e já expressos a bastante tempo, que se abolisse o celibato. Por mais lindo que ele seja, por mais santo que ele seja, ser opcional que um padre possa ser casado. Que tenha o direito de arranjar uma moça bem bonita e continuar a vida religiosa, porque todo mundo quer casar com moça bonita, e eu também queria.
Vanguarda - O senhor é admirado por todos pelas suas obra e pelos seus atos. Dentre eles, quais mais o orgulham?
Monsenhor - Foi ter dedicado a melhor parte da minha vida, do meu sacerdócio e até da minha juventude às crianças. Um dia, no seminário de São Leopoldo, o reitor, que se chamava Antonio Luckmam, resolveu levar o seminário em peso a uma sessão de cinema. Ele era um dos padres mais atualizados, mais modernos, mais poliglota, e esse filme decidiu a minha vida, e a de outros padres que foram assisti-lo.
Vanguarda - Conte para gente a história do Paraíso da Criança.
Monsenhor - Esse filme tinha o nome Cidade dos Meninos, e era filme dos moleques de rua, da pior parte da juventude, que eram adotados por um padre, como eu faço hoje. Adotou todos os que caíam perto dele, o nome do padre do filme era Padre Flamegan. O padre era americano, e ele tinha os moleques daquele tempo todos com ele numa casa. Era uma espécie de orfanato, orfanato inteligente, não como essas porcarias que estão aparecendo hoje aí. Aí eu tive vontade de fazer como ele. Lá em Criciúma, eu fundei a Casa da Criança, que hoje é o Colégio São Bento, que ficou com as irmãs, que transformaram num colégio particular. Lá em Joinvile fundei a Cruzada Eucarística, fiz passeios belíssimos com as crianças até Brusque, fiz torneios de vôlei entre rapazes e moças, gerando as moças um clube. Aí, cheguei em Urussanga e fundei oficialmente o Paraíso da Criança aqui na casa onde eu moro, e depois construí o prédio que ainda hoje é do Paraíso da Criança, que nesse quinze de agosto comemorou 55 anos.
Vanguarda - O senhor ocupa a cadeira número 15 da Academia de Letras de Urussanga. Então nos fale um pouco a respeito suas obras publicadas.
Monsenhor – Meu maior orgulho é o Catequista Ideal, que está na biblioteca do Vaticano como um dos melhores livros de pesquisa sobre a catequese.
Vanguarda - Qual o papel da imprensa?
Monsenhor - Difusão da verdade. Eu sou da imprensa desde o tempo de seminarista, desde o quarto ano, quando eu vim a conhecer a revista que se chamava ECO, e que infelizmente já acabou. Essa revista era feita pelos jesuítas, por que nós também fomos, naquela época, educados pelos jesuítas, e era o nosso órgão de difusão. Era impresso em Porto Alegre e mais tarde em São Leopoldo. ECO quer dizer vibração, e essa vibração permanece até hoje nos padres daquela época e em alguns que talvez ainda vivam: Padre Samtini, Padre Lueckman… Era também uma revista de luta contra a Maçonaria daquele tempo, porque a de hoje é outra coisa também.
Vanguarda - Padre, o senhor é uma das raras exceções de pessoas religiosas que assumem abertamente sua posição política. O que o levou a tomar essa atitude?
Monsenhor - O meu interesse no tema surgiu quando Getúlio Vargas colocou o primeiro peso na balança. Organização, sinceridade, lealdade, porque isso não pode ser dito tudo numa única palavra , patriotismo e fé. Aí surgiu também o meu entusiasmo de jovem pela política, porque Getúlio talvez tenha sido, com todo o seu ardor, com todos os seus erros e todos os seus acertos, o maior estadista americano que essas Américas conheceram até os dias de hoje. O meu pai era getulista. Eu tive tios que morreram por esta política, seja a minha ou não. Lutei por aquilo que achava correto, justo. Entendia que a falha da justiça traz todos os males, inclusive os atuais, aqueles que ainda estão correndo nas nossas mãos ainda cálidas.
Vanguarda - Tendo o senhor assumido uma ideologia partidária, mudou a relação com os fiéis, haja vista sua influência na condição de líder religioso?
Monsenhor – NÃO, com todas as letras maiúsculas. Porque o partido é um veículo no qual qualquer pessoa idealista embarca. Ou embarca pra ficar, ou não embarca em coisa nenhuma. Então, eu nasci numa época como primeiro passageiro da democracia, essa que nós temos agora de endireitar as coisas. Naquele tempo, em que eu era criança, a democracia já estava aí como a melhor forma de governo, que eu como cidadão, como padre, adotei conscientemente, baseado na política de Getúlio, cuja morte ainda continua um mistério, e cuja vivência ainda continua na presença de um homem de fé, de um homem de igreja, o Cardeal Leme. Ele quem foi pessoalmente tirar o Presidente da República condenado a forca, veio pessoalmente buscar Washington Luiz para desistir da sua permanência diante das forças de Getúlio Vargas.
Vanguarda - O que o senhor deseja para o jornal Vanguarda que está começando?
Monsenhor - A fé em primeiro lugar, a confiança em segundo, a fraternidade em terceiro, e em quarto lugar é Deus que dá, não nos compete. O primeiro jornal que eu fundei em Urussanga era Vanguarda. Procurem aí nos livros antigos de Urussanga, vão achar que o nome não é novo. Mas, vocês já sabem, estão reativando o nome de um jornal que já existiu em Urussanga. Então, eu vou dar uma benção e estendê-la a todos os jornais que existiram. Que a graça, a benção, o perdão, a prosperidade desta terra, o amor de Deus, a sua fé, estejam convosco. Deus é um só para todos nós, e nós deveríamos ser um coração só. Fosse que religião fosse. Aí nós seríamos mais unidos, mais perfeitos, mais candidatos ao céu. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém!


Caros colegas do jornal Vanguarda. Eu não tinha lido a entrevista do Monsenhor Agenor Neves Marques, li e reli e, achei linda. Esse era o Padre Agenor que eu convivi nos meus tempos de Urussanga. Pessoa humilde e de uma inteligência incrivel. Suas orientações para comigo foram muito importantes na minha vida. Quando trabalhei na Rádio Difusora, hoje Fundação Marconi, foi ele que me ensinou os primeiros passos para enfrentar um microfone. Eu só tenho boas recordações deste Santo Homem. Um abraço.
Jaci Soares-Dada
Boa tarde,
Estou entrando em contato pois nasci na cidade de urussanga em 1979 no mes de marco, logo apos meu nascimento foi colocada para adocao na epoca o padre Ajenor me levou para a casa paraiso da crianca, minha avo materna ja falecida Dona Alexandrina Delfino de Oliveira foi quem me trouxe, ela me disse que falou com o Padre Ajenor e fui adotada pela filha dela minha mae de criacao a 31 anos atraz, procuro por noticias sobre minha mae biologica, nasci no mes de 21 no ano de 1979, meus ducementos ta com a data de 21 de marco, mas pode ser que nasci dias antes, fui adotada com 3 meses de vida, sei de muita pouca coisa dessa epoca, sera que nos registros ou nos arquivos antigos nao esta o nome de minha mae biologica, procuro por noticias sobre meu nascimento a muito tempo, quero saber quem sao meus pais biologicos, de onde vim, minhas verdadeiras origens, sera que vcs podem me dar alguma informacao sobre esse assunto? por favor e muito importante para mim, ja entrei em contato com o hospital e estou esperando por noticias.
Se souberem de algo me mande um e-mail ou liguem para 48-36267878 ou 48-99165348.
Obrigado.