Pão e circo, com cheiro de mofo
mai 25th, 2007 | por Jornal Vanguarda | Categoria: EditorialPão e circo bastam, diziam os filósofos gregos, para acalmar o povo em fúria. A fúria já não é mais a mesma, mas a fórmula continua inalterada, o pão e o circo ecoam pelos séculos e séculos, como a tradicional maneira de se adestrar a população, da Grécia ou de Urussanga, indiferentemente.
Se o pecado é pela carne fraca, o que dizer do esquecimento, que mutila toda a forma de nos organizar em sociedade? Quantos urussanguenses, os urussanga-natos, sabem dizer quantos anos a “terra do bom vinho” está completando. A verdade (ou o pecado) é que mais uma festa está chegando, e por total falta de opção para uma noite fria de sábado, o povo vai procurar pão e circo no Parque.
A nossa raiz italiana faz aniversário a cada dois anos, quando a Ritorno Alle Origini aparece. Quem quer lembrar dos rotos imigrantes italianos, que enganados na Itália e enganados quando chegaram aqui, tiveram que abrir no meio do nada, uma cidade como Urussanga. A rotina moderna mata sufocado o passado na poeira espessa do dia-a-dia e, na hora de lembrar daquele passado que nos construiu, o pão e circo falam mais alto.
A cultura italiana, aquela que foi trazida nos baús dos imigrantes, não pode ser alimentada com um prato de polenta com fortaia, uma vez a cada dois anos. Esta cultura deve ser cuidada dentro dos corações dos urussanguenses, ano após ano, para que no futuro, no nosso futuro, tenhamos ao menos um motivo para nos reunir e festejar o passado.
A cultura italiana, aquela de corpo e alma, não sobrevive somente na boa vontade de um punhado de empresários. A verdadeira cultura dos imigrantes está na face rosada dos agricultores no interior, nas casas demolidas pelo progresso que ficavam no Centro da cidade, está, enfim, na esperança de que alguém vá lembrar dos colonos maltrapilhos de 1878, não só em maio, no parque, mas para sempre.
A comissão organizadora da Ritorno Alle Origini, que tem de se desdobrar para dar pão e circo de qualidade, precisa se preocupar em contentar a todos os olhos e bocas. Tanto que, neste ano, abriu espaço para bandas que não cantam músicas típicas, mas convidam e abrem caminho para que os jovens, de hoje, lembrem amanhã de que um dia se festejava a cultura da mãe Itália.
Pão e circo, de quinta a domingo, para que o povo se esqueça da rotina. E, assim, na próxima segunda, a normalidade sepulta nossas raízes italianas no baú, e esperaremos para vestí-la daqui a dois anos. Pão e circo, com cheiro de mofo.

