Asfalto e qualidade de vida
out 6th, 2006 | por Jornal Vanguarda | Categoria: ArtigosO que é qualidade de vida? Em minha opinião é um ar respirável, água potável, um local excelente de se viver sem o corre-corre das grandes cidades. Infelizmente, na sociedade capitalista que vivemos, onde o SER foi trocado pelo TER, as prioridades das pessoas passam a ser outras, como ar-condicionado, um bom som, um TV de plasma, etc. O maior símbolo do sistema capitalista é o automóvel. Este é um dos grandes problemas ambientais do planeta e, curiosamente, uma das maiores paixões da humanidade. Hoje em dia, as pessoas podem não ter o que comer, onde morar, mas “necessitam” de um carro, pois carro é “status”. E a sociedade aderiu a esse símbolo de consumo, pois as cidades são preparadas para os carros, seja diminuindo os passeios públicos, seja alargando as ruas ou asfaltando as mesmas para que o “carro não sofra” danos. Lembro até uma frase interessante que diz “as pessoas usam o dinheiro que não têm, para comprar coisas que não necessitam, para mostrar aos outros que têm”.
Conversando com algumas pessoas de Urussanga, cidade que adotei para viver com minha família, vemos a imensa dificuldade das mesmas em aceitar o quanto é prejudicial para nós à colocação do asfalto na cidade, o que é explicável pela total falta de informações sobre essa questão. Uma das funções mais importantes da terra é filtrar a água da chuva. Quando cobrimos o solo com concreto, cimento ou asfalto, impedimos a passagem natural da água, que se acumula rapidamente nas cidades, causando inúmeros transtornos à população. Aqui ao lado, em Criciúma, não é difícil imaginar por que qualquer temporal tem o poder de causar alagamentos. São Paulo, por exemplo, tem 45% da superfície coberta artificialmente, impermeabilizada com material que veda a passagem da água. Em algumas áreas da cidade, esse índice chega a 90%, o que transforma a cidade num ponto cinza visto de um satélite. A cidade se torna um tampão, que não deixa a água ir embora. E sempre que chove, vemos no Jornal Nacional: tragédia, engarrafamentos gigantescos, pessoas que perdem suas casas, etc…
Somos um país urbano, onde 81% da população vive nas cidades. O crescimento desordenado permitiu o aparecimento de projetos oportunistas, que depreciam a qualidade de vida da população. No meio político, sabe-se que os investimentos em urbanização rendem preciosos votos. O problema é que os prefeitos nem sempre fazem o serviço direito. Em boa parte da periferia, por exemplo, o sonho de viver numa rua asfaltada inspira projetos apressados que podem se transformar num pesadelo em longo prazo.
Para que o asfalto seja um sonho bom, é preciso que esteja incluída na obra a instalação de galerias de água pluvial que ajudem a escoar a água da chuva pelos bueiros abertos juntos ao meio fio. Quanto uma rua de terra vira rua asfaltada e não se oferece uma passagem alternativa para a água da chuva, algo de ruim poderá acontecer, dependendo da configuração do terreno e da bacia hidrográfica local. Mesmo que não haja enchentes, a simples acumulação de água, transformando o asfalto numa pequena piscina, acelera o desgaste do material, abrindo buracos e rachaduras.
O que mais se vê em boa parte das cidades são ruas asfaltadas a toque de caixa, inauguradas com pompa e circunstâncias, sem galerias de água pluvial. Urussanga, segundo dados meteorológicos médios registrados na Estação Meteorológica da Epagri, de 1923 a 2003 mostra que temos no verão altos índices de chuva, com aproximadamente 200mm de chuva neste período (set/mar). O maior período com chuvas foi de 17 dias, com 376mm (13 a 29/01/96). O máximo de chuvas em 24 horas foi 241mm em 15/02/85. Portanto, temos chuvas abundantes, o que nos faz perguntar: a água da chuva vai para onde com o asfalto?
Outro ponto importante de questionamento é a temperatura. As diferenças de temperatura no ambiente urbano são estudadas há muito tempo, inclusive por mim. Com isso, se tem capacidade de identificar as chamadas ilhas de calor, ou seja, espaços em que a falta de árvores, o acúmulo de prédios, a grande quantidade de ruas asfaltadas e a falta de ventilação acabam determinando variações importantes de temperatura e impactos sobre a qualidade de vida. É surpreendente que numa mesma cidade, e num bairro dessa mesma cidade, numa distância de aproximadamente 2km, você tenha uma variação de temperatura da ordem de 10ºC. Mas para quem não fica aqui no verão (as pessoas que, talvez, defendam o asfalto), esse é um dado supérfluo. Mas com certeza a temperatura média da cidade vai aumentar nos locais em que serão(?) colocados o asfalto. O que talvez não seja problema, pois, provavelmente, a maioria da população tem ar condicionado em suas casas.
Ouvi dizer que com asfalto a poeira das lojas e das casas vai sumir. A única diferença será a cor da poeira, pois o asfalto vai se desgastando com o sol e o uso dos carros e vai soltando uma fuligem que é pior do que areia. Outro problema: quando SAMAE ou telefônica precisar abrir um buraco no asfalto, este nunca mais será o mesmo. Haverá um remendo que certamente sairá e vão reclamar para a prefeitura que o seu carro caiu num buraco. O asfalto tem um vida útil muito pequena, no máximo 10 anos. Depois disso, colocar asfalto novamente é necessário. Engraçado é que o paralelepípedo dura centenas de anos. Se as pessoas respeitassem o limite de velocidade no perímetro urbano (40km/h) não teriam os “vários” problemas em seus carros. Se a prefeitura, ao terminar suas obras, colocasse o paralelepípedo corretamente, nivelado, não haveria tantos buracos. Mas isso é mais barato de fazer do que colocar mais asfalto. Basta vontade política. Pegar as partes críticas, retirar as pedras, nivelar, colocar areia e o paralelepípedo novamente, tornando a rua transitável.
O mais correto, seria fazer um plebiscito com a população com a intenção de esclarecer os prós e contras deste tipo de calçamento. Já ouvi falar inclusive que asfalto é saúde. É verdade. Depois do asfalto virão os problemas de saúde mesmo. Lombadas, lombadas eletrônicas, sinaleiras, tudo para conter a velocidade. E se asfalto fosse sinal de progresso, várias cidades no nosso entorno já seriam a Wall Street catarinense. Precisamos é de uma discussão mais ampla, com todos os envolvidos da sociedade civil neste debate. Há alternativas de progresso sim, sem necessitar do asfalto. Ficamos à disposição para qualquer debate, explicação ou discussão.
Prof. Msc. Henrique Schnitzspahn
Geógrafo - Mestre em Ciências Ambientais


[...] Para quem quiser ler mais. [...]
Muito bom teu artigo!
Professor Henrique,
Gostei muito de ler seu artigo e participo da mesma opinião, embora não tão embasada quanto a sua. Mas peço que visite meu blog e, se possível, me deixe um comentário para colaborar em minha opinião e fortalecer esta nossa luta inglória.
Abraço!
Prof. Henrique , gostei muito do seu artigo e me foi muito esclarecedor. Mas, porém gostaria se fosse possível, que o Sr. me desse maiores explicações no sentido que mal maior possa ter o asfalto quando ele é aplicado em condominios. Vou lhe explicar melhor.
Moro num condominio de casas, apenas 47, então é pequeno, e que a maioria das pessoas gostaria de passar asfalto nas duas ruas que temos aqui no condominio, no que sou totalmente contra.
Mas gostaria que o Sr. me desse mais argumentos nesse sentido , para que eu possa fazer uma contestação mais consistente.
Desde já lhe agradeço de coração.
Oi Márcia… infelizmente, somente hoje tive a oportunidade de ver o seu comentário e sua dúvida. Onde fica o seu condomìnio? Dependendo do local, tem que ver que tipo de clima é vigente, umidade, essas coisas… mas pode-se adotar o sistema da cidade de Sacramento, nos EUA, que arborizou a cidade para amenizar o calor. Temos o exemplo das ecovilas na Inglaterra que usam calçamento de paralelepípedo ou lajotas ecológicas, mas NUNCA ASFALTO, pois isso é certeza de aquecimento da área asfaltada. Fora que teria que ser colocado um encanamento de esgoto muito grande, com grandes bocas de lobo para poder dar escoamento da água da chuva, por exemplo. Qualquer dúvida, meu email é prof.henrique.geo@gmail.com… Abraço e espero que ainda dê tempo…
Olá professor Henrique…
Encontrei o seu artigo quando procura no google sobre os prejuízos do asfalto. Bom, se fosse possível gostaria de saber mais sobre os prejuízos do asfalto ao meio ambiente. Sou moradora de Sambaqui, um bairro em Florianópolis. É um bairro, à beira do mar, e sua rodovia está em obras de implantação da rede de esgoto, estamos vivendo o caos. Digo caos porque eles abrem e não fecham os buracos, as lajotas são recolocadas a “grosso modo”, se é que posso usar esse termo. Existe uma campanha para a colocação de asfalto, sei que ele é prejudicial ao meio ambiente. Gostaria de tirar essa dúvida para estar mais preparada para discutir este assunto. É possivel colocar asfalto em uma rodovia de 3 km que caminha ao lado do mar?
Aguardo
Gostei de seu artigo, gostaria também de compartilhar, pois além do uso do paralelepípedo para o calçamento trazer um bem estar para população, teríamos também mais emprego gerados. Meu pai trabalha na fabricação destas pedras e sabemos que o setor tem perdido o foco.
Pasmem, moro numa cidade do interior do RJ. É uma cidade bucólica dentro de um vale. Tínhamos ruas com papalelepípedos, casas baixas e quase nenhum prédio. Agora, de uns tempos para cá, o prefeito autorizou a construção de prédios com mais de quatro andares. De dois meses para cá, ele está asfaltando todas as ruas e temos histórico de enchentes.
A temperatuara da cidade no verão já tinha aumentado com os prédios e agora com o asfalto já estamos sentindo o efeito, sei que ele está cometendo crime ecológico, só não sei como denunciar, se alguém souber como denunciar e só me mandar um e-mail: debergbard@hotmail.com